Por Chiara Lombardi — Em Gelbe Briefe, o diretor turco İlker Çatak desenha um retrato seco e urgente de como o poder se infiltra na vida privada, transformando reconhecimento profissional em risco e segurança familiar em terreno instável. Situada em Ancara, a trama segue um casal de artistas: ele, dramaturgo e professor universitário; ela, atriz que encena com sucesso os textos do marido. A rotina criativa e as satisfações profissionais parecem firmes — até que chegam as misteriosas letras amarelas que dão título à obra.
Esses envelopes, símbolo de uma censura burocrática e sutil, desencadeiam uma cascata de consequências: a primeira do espetáculo é cancelada, o protagonista perde seu cargo docente e é levado a depor perante um juiz. A intimidade do casal, até então protegida pela rotina cultural e pela reputação, é desfiada diante de um Estado que usa a administração como ferramenta de controle. Enquanto isso, a filha adolescente choca-se com as restrições impostas à sua liberdade e a mulher recebe uma oferta para entrar em uma novela — uma tentadora trapaça entre visibilidade e acomodação.
Çatak volta a tocar um tema que já percorrera em La sala professori: a exposição da educação retrógrada e do machismo enraizado em discursos “progressistas”. No filme, o homem de casa, acostumado a encenar a autoridade paterna e intelectual, vê seu papel desintegrar-se. O que parecia um roteiro claro de poder doméstico se revela um espelho quebrado: autoridade, fama e legitimidade pública não protegem contra a máquina estatal, e revelam-se frágeis diante da arbitrariedade.
Como observadora do nosso tempo, penso em Gelbe Briefe como uma semiótica do medo: os envelopes amarelos funcionam como sinais vermelhos invertidos, ordens silenciosas que reescrevem carreiras e relações. A escolha de Çatak de concentrar o conflito no seio familiar transforma o filme num microcosmo — o cenário íntimo onde se joga o roteiro oculto da sociedade. O que está em cena não é só a perda de um emprego ou o cancelamento de uma estreia; é a erosão de um ethos cultural que acreditava ser possível conciliar liberdade artística e segurança pessoal.
Visualmente contido e narrativamente preciso, o longa entrega momentos de tensão cotidiana que ressoam como pequenas cenas de um drama contemporâneo: discussões à mesa, acenos de triunfo profissional que se tornam ruínas, olhares que antes comandavam a sala de aula e, agora, procuram explicações. A atuação de Tansu Biçer — um dos rostos que personificam a fratura — acrescenta camadas ao retrato: a vulnerabilidade do artista que se vê obrigado a negociar a própria identidade.
Em tempos em que a política e a cultura se encontram na arena pública, Gelbe Briefe funciona como um monito. Não é apenas cinema; é um alerta estético sobre tendências autoritárias que se disfarçam em procedimentos administrativos e boas intenções. Çatak nos convida a observar o processo como um filme dentro do filme, onde as cenas de intimidade revelam, com precisão cirúrgica, o colapso de estruturas que julgávamos sólidas.
O seriado/filme estreia em 6 de março, em primeira noite no canal Nove e em streaming na discovery+. É uma obra que pede não apenas presença — mas leitura crítica: assistir é também interrogar o que, hoje, chamamos de normalidade.






















