Por Chiara Lombardi — Observadora do zeitgeist e analista cultural para Espresso Italia.
A atriz italiana Gabriella Pession volta às telas em grande estilo na terceira temporada de Tell Me Lies, disponível no Disney+. A série, adaptada do romance de Carola Lovering, expande agora o seu território narrativo para além do campus universitário, aprofundando o panorama emocional dos protagonistas — e abrindo espaço para uma figura adulta que funciona como um espelho do nosso tempo: Marianne, a professora interpretada por Pession.
Ambientada num college americano, a série acompanha jovens em seus primeiros amores e mentiras fundadoras. A criação de Meaghan Oppenheimer, impulsionada pelo sucesso da primeira temporada, fez com que a trama migrasse do livro para um roteiro contínuo, onde Lucy, Bree e Stephen (vividos por Grace Van Patten, Catherine Missal e Jackson White) continuam a explorar o território ambíguo entre paixão e manipulação. Nesse mapa das emoções, a presença de Marianne assume tonalidades surpreendentes: uma mulher adulta num mundo de jovens que já sabe das imperfeições das relações humanas.
“Há um plot twist que revela facetas profundas e honestas da minha personagem, e que muda a percepção do espectador”, conta Pession. Essa reviravolta recoloca a professora não apenas como elemento exótico — “a única italiana” no conjunto — mas como testemunha e catalisadora de dinâmicas tóxicas que atravessam gerações.
Na vida real, Gabriella não fala apenas com a verve da atriz, mas com a autoridade de quem já percorreu caminhos afetivos complicados. “Eu já passei por relações tóxicas e saí desse ciclo com muito trabalho sobre mim mesma. Hoje é mais fácil detectar o narcisismo tóxico, eu tenho um metal detector”, confessa. Essa frase, dita sem teatralidade, funciona como um reframe: o aprendizado pessoal se transforma em radar emocional — e, cinefileamente falando, num roteiro oculto que orienta escolhas e performances.
Casada desde 2016 com o ator irlandês Richard Flood, com quem tem o filho Giulio — descrito por ela como “um pequeno Sinner”, referência ao talento precoce nas quadras de tênis — Pession também traça uma decisão de vida que ecoa num cenário de transformação global. Nascida na Flórida em 1977 e criada em parte nos Estados Unidos, ela admite: “Amo a América, mas não a reconheço mais. As muitas armas me assustam, e é por isso que escolhi criar meu filho em Roma.”
O percurso profissional de Gabriella começou nos anos 1990, no cinema italiano — com filmes como Fuochi d’artificio de Pieraccioni, Ferdinando e Carolina de Lina Wertmüller e La verità vi prego sull’amore de Apolloni — e ganhou uma curva internacional quando ela se mudou de Los Angeles para Roma, ironicamente acelerando sua carreira em Hollywood. Em 2015 contracenou com Donald Sutherland em Crossing Lines, onde conheceu o marido; mais recentemente protagonizou a versão televisiva de O Conde de Monte Cristo e atuou ao lado de Anthony Hopkins em Those About to Die, de Roland Emmerich.
Em Tell Me Lies, a presença de Pession funciona como uma lente: não apenas ilumina as fraquezas e pretensões da juventude, mas nos convida a refletir sobre como o passado e a experiência adulta reescrevem o entendimento do amor. A série, assim, torna-se mais do que entretenimento — é um exercício de memória afetiva e semiótica, o roteiro oculto de uma geração que aprende, com dor e lucidez, a detectar o que é realmente tóxico.
7 de fevereiro de 2026





















