Por Chiara Lombardi — Em uma entrevista franca ao Corriere della Sera, Filippo Timi se abre como poucos sabem: ainda é, nas bordas, aquele menino hipersensível, um “animaletto brado” que sempre rejeitou rótulos fáceis. Entre desejos cinematográficos, medos íntimos e a sinceridade que só o teatro confere, Timi desenha o retrato de um artista cuja vida profissional funciona como extensão de sua família — e cuja ausência disso seria um pequeno exílio doméstico.
“Antes eu pensava: quando ficar famoso, não me sentirei mais sozinho. Não é assim”, confessa. A fama, diz ele, às vezes amplifica a solidão: “Você pode estar no meio de uma multidão que te aplaude e, ao voltar para casa, sentir que não tem afeto, que sacrificou relações pelo trabalho”. E é justamente esse sacrifício que Timi evita enxergar como fútil. Arte, para ele, é progenitora: “Se me levi a arte, me transformo em um velhinho que leva o cachorro para passear. Até pode ser uma vida serena, mas meus filmes e peças são meus filhos, minhas propagações”.
No campo dos sonhos profissionais, o ator não esconde ambições de grande escala: gostaria de contracenar com Sabrina Ferilli e Miguel Bosé, sob a direção de Pedro Almodóvar. Também almeja ser dirigido por Paolo Sorrentino e sonha em estrear como diretor. Enquanto isso, divide o tempo entre televisão e palco. Está prestes a encerrar a nova temporada de I delitti del BarLume, adaptação para Sky dos romances de Malvaldi, e se prepara para voltar ao palco do Franco Parenti em Milão com Amleto². É no teatro, admite, que encontrou ferramentas para enfrentar seus limites e demônios.
Ao recordar papéis que marcaram sua carreira, Timi fala de Vincere, filme de Marco Bellocchio no qual interpretou Benito Mussolini. “Eu tinha 34 anos, e via naquele jovem Mussolini uma fome e uma desinibição parecidas com as minhas daquela época. Mas, felizmente, sou por natureza espontaneamente bom. Imaginei Mussolini como alguém atravessado por um rio negro”, diz o ator, que atribui a vários diretores a generosidade de lhe oferecer oportunidades sem que ele tivesse passado por uma escola formal de atuação.
Foi um professor de canto que primeiro percebeu algo singular em Timi e o convidou para participar de laboratórios gratuitos — uma experiência decisiva que o marcou. Desde então, Timi mantém essa lógica de gratuidade ao ensinar: “Comigo você nunca paga”. Essa atitude revela não só gratidão, mas um desejo de retribuição, de tecer uma comunidade artística mais próxima do que do mercado.
No terreno privado, a entrevista reserva palavras sobre o fim do matrimônio com o escritor Sebastiano Lombardi. Timi lembra que, quando se casou, acreditava no “para sempre”, mas a vida real reescreveu esse roteiro: “Achei que seríamos para sempre — e por isso dói. Mas é bobo permanecermos presos a uma só ideia; a gente se racha”. A separação já havia sido anunciada por ele em 2022 ao FqMagazine.
Ao encerrar o diálogo, fica a imagem dele como um artista que, mesmo internacionalizado em ambições e reconhecido na Itália, se mantém espelho do próprio tempo: um criador que vê no ofício o antídoto e o risco ao mesmo tempo. A sua declaração — que sem a arte restaria um velhinho a passear o cão — é metáfora de um eco cultural maior: quando se remove aquilo que dá sentido à identidade, o sujeito corre o risco de se reduzir. E para Filippo Timi, isso não é opção.




















