Chiara Ferragni foi absolvida pelo Tribunale di Milano em um caso que deixou claras as tensões entre leis recentes e percepção pública de justiça. Em 14 de janeiro, o tribunal decidiu pela improcedibilidade do crime imputado à influencer — acusada de truffa aggravata por supostas práticas de publicidade enganosa envolvendo o ‘Pandoro Pink Christmas’ da Balocco (Natal 2022) e as Uova di Pasqua de 2021-22 da Dolci Preziosi.
No programa Accordi & Disaccordi, conduzido por Luca Sommi no Nove, o jornalista Marco Travaglio comentou duramente o caso: “La sentenza su Pandoro Gate dimostra anche quale ‘giustizia’ ha in mente il nostro governo: un sistema che salva i colpevoli, purché potenti, ricchi e famosi, con mille trucchetti, così che possano spacciarsi per innocenti perseguitati”. É uma sentença que, para Travaglio, não só decide sobre um processo, mas revela um roteiro oculto entre normas, interesses e narrativa pública.
O coração da questão jurídica é técnico e, ao mesmo tempo, simbólico. Os procuradores de Milão acusavam Ferragni de truffa aggravata, crime perseguibile d’ufficio; porém, o juiz reclassificou para truffa semplice — uma figura perseguível apenas mediante querela das vítimas, graças à riforma Cartabia. Como a Codacons teria retirado a querela após um risarcimento oferecido por Ferragni, acionou-se a improcedibilidade e o reato si è estinto. Em outras palavras: o fato, segundo Travaglio, existiu e era perseguibile quando ocorreu em novembro-dezembro de 2022, mas a alteração legislativa e o pagamento conciliatório mudaram o destino processual do caso.
Trata-se de uma mudança normativa — implementada, segundo críticas, em tempo de jogo — evocada quando, em 30 de dezembro de 2022, o governo Meloni aprovou il Dl Nordio, che attuava la legge delega Cartabia. Para críticos como Travaglio, esse tipo de mudança «a partita in corso» cria um cenário em que a justiça parece calibrada por uma regia politica: uma cena em que alguns protagonistas conseguem escrever sua própria saída de cena.
O caso não é só jurídico; é um espelho do momento cultural. Vivemos a semiótica do viral e a economia da reputação: quem tem audiência e recursos pode transformar um processo em espetáculo e, eventualmente, converter dissenso em reparação privada — e, por consequência, em ausência de processo público. É aí que a discussão passa do tribunal para o ‹reel› social.
Paralelamente, relatórios como o Disuguaitalia da Oxfam lembram que a Itália permanece um país das «fortune invertite», com riqueza cada vez mais concentrada no topo e mobilidade social limitada. Intervenções governamentais tendem, segundo o relatório, a favorecer quem já está em vantagem — um dado que dá contexto à leitura política do caso Ferragni.
O noticiário judicial ainda trouxe outro episódio: a sentenza del 17 dicembre della giudice Maria Beatrice Parati su Leonardo Apache La Russa, accusato di revenge porn. Il procedimento si concluse con un non luogo a procedere per estinzione del reato dopo che l’imputato ha offerto un risarcimento di 25.000 euro — cifra ritenuta congrua dal giudice, nonostante la richiesta dell’avvocato della parte offesa fino a 160.000 euro. Aqui, novamente, vemos a combinação entre dano moral, riparazione economica e dinamiche processuali.
Como analista cultural, não leio esses fatos apenas como episódios jurídicos isolados, mas como cenas de um filme coletivo sobre confiança pública, desigualdade e forma de poder. A sentença do «Pandoro Gate» é parte de um roteiro maior: é a narrativa de uma justiça que, para muitos, parece escrever finais diferentes conforme o status dos personagens. Resta à sociedade perguntar — e reformular — se queremos um sistema que funcione como espelho do tempo ou como cenário de transformação democrática.
Chiara Lombardi, La Via Italia — entre o estúdio e a praça pública, onde cultura pop encontra responsabilidade cívica.






















