Ettore Scola deixou o mundo há dez anos, em 19 de janeiro de 2016. Hoje, essa data funciona como um espelho do nosso tempo: celebrar sua obra é revisitar um roteiro oculto da sociedade italiana do pós-guerra até o final do século XX. Às 11h15, a Rai Storia exibe Ritratto di Ettore Scola, um reconhecimento oportuno de quem transformou memórias coletivas em cenas que ainda reverberam.
Scola é autor de títulos que resistem ao esquecimento, entre eles C’eravamo tanto amati, Una giornata particolare e Il viaggio di Capitan Fracassa. Mais do que o rótulo de um cineasta, sua filmografia funciona como uma coleção de espelhos sociais: personagens e enredos que refletem mudanças históricas, relações íntimas e as ironias do destino. Como ele mesmo disse, “Io sono figlio del Neorealismo, ma la cifra del mio cinema è un realismo un po’ magico. Nella magia bisogna crederci. Nei miracoli bisogna crederci anche se poi non accadono; il miracolo deve animarci“: nessa afirmação mora a chave de seu método — a crença ativa no potencial transformador da ficção.
O que torna a obra de Scola tão atual não é apenas a fidelidade a um tempo histórico, mas o modo como suas tramas estimulam uma empatia crítica. Seu cinema pode ser lido como uma semiótica do viral emocional: uma sucessão de pequenos gestos e falas que viralizam nas consciências e moldam memórias coletivas. Em cada enquadramento, há uma atenção quase documental ao detalhe humano — olhos que dizem mais que diálogos inteiros, silêncios que contam histórias de sociedade.
Relembrar Scola é também reconhecer a ambivalência do realismo cinematográfico. Filho do neorealismo, ele o revisita com humor e melancolia, aproximando o público de experiências íntimas sem perder a dimensão política. Seus filmes, mesmo quando permeados por toques de ironia, mantêm uma severa honestidade ética: não há nostalgia nostálgica, mas uma convocação crítica à memória.
Ao assistir hoje ao documentário biográfico, vale procurar o roteiro oculto das escolhas artísticas de Scola: a colaboração com atores que se tornaram ícones, a facilidade em misturar o trágico e o cômico, e a aposta em histórias que funcionam como mapas emocionais de uma nação em transformação. O legado dele nos lembra que o cinema não é apenas entretenimento — é um dispositivo de reflexão coletiva, um reframe da realidade que nos obriga a olhar ao redor e dizer o que fazemos com o que lembramos.
Se você quer um começo para reentrar nessa filmografia, volte a C’eravamo tanto amati para sentir a tessitura histórica e afetiva, redescubra Una giornata particolare para perceber como um instante pode ocupar a amplitude de uma vida, e embarque em Il viaggio di Capitan Fracassa para desfrutar do cinema como aventura e comentário social. Hoje, ao lembrar Scola, celebramos não só um diretor, mas um arquiteto de memórias cinematográficas que continua a nos ensinar a importância de crer na possibilidade dos milagres — mesmo que apenas como impulso criativo.






















