Por Chiara Lombardi — A 38ª edição dos European Film Awards, realizada no Futurium em Berlim, desenhou-se como um espelho do nosso tempo: um encontro entre arte, política e memória coletiva, onde o cinema revela tanto a forma como o conteúdo do mundo contemporâneo.
No centro dessa noite está Sentimental Value, de Joachim Trier, que se confirmou o grande vencedor ao conquistar seis estatuetas, incluindo Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro (dividido entre Eskil Vogt e o próprio Trier). A obra também rendeu ao elenco os prêmios de Melhor Ator Europeu, para Stellan Skarsgård, e Melhor Atriz Europeia, para Renate Reinsve. É um triunfo que desenha, em parcela, o roteiro oculto da Europa cinematográfica: filmes que articulam intimidade e cenário coletivo e que, por isso, reverberam além da tela.
Outra presença de destaque foi Sirat, de Oliver Laxe, que arrecadou quatro reconhecimentos, reforçando a diversidade estética e temática premiada nesta edição. Enquanto isso, a delegação italiana teve motivos para comemorar: Greta Scarano foi laureada com o European Young Audience Award pelo filme La vita da grandi, e Alice Rohrwacher recebeu o prêmio EFA European Achievement in World Cinema, um reconhecimento à sua trajetória que dialoga com a tradição e a renovação do cinema europeu.
Paolo Del Brocco, CEO da Rai Cinema, manifestou publicamente suas congratulações a Greta Scarano e a Alice Rohrwacher, destacando o papel do cinema italiano na cena europeia contemporânea. Essa celebração nacional ocorre ao mesmo tempo em que a cerimônia assumiu um tom fortemente político.
A abertura surpreendente ficou por conta do cineasta iraniano Jafar Panahi, autor de Un Semplice Incidente, que subiu ao palco — por vídeo — com um longo e comovente monólogo. Panahi fez um apelo contundente contra o regime iraniano, denunciando o terrível derramamento de sangue em seu país — mencionando “com pelo menos 12 mil mortos em 48 horas” — e convocando a comunidade internacional a não virar o rosto. “A violência, quando permanece sem resposta, normaliza-se”, afirmou, lembrando que o silêncio frente à opressão encolhe o fôlego da liberdade em qualquer parte do mundo. Foi um momento que transformou a cerimônia num palco para a urgência dos direitos humanos.
Mais do que uma noite de troféus, esta edição dos European Film Awards funcionou como um reframe da realidade: o filme como reflexão, a indústria como voz e o público como testemunha. Entre prêmios técnicos e discursos políticos, o festival deixou claro que o cinema europeu continua a escrever, com imagens e sons, a cartografia dos nossos tempos.
Para leitores e amantes do cinema, fica o convite a olhar além das manchetes: entender por que certos filmes emergem como vozes coletivas, quais memórias eles desenterram e como, no imenso cenário de transformação, a arte se mantém capaz de alterar nosso ponto de vista.



















