Por Chiara Lombardi — Há gestos no cinema que funcionam como espelhos do nosso tempo: pequenas acrobacias que, apesar de efêmeras na tela, carregam histórias enormes por trás. A trajetória de David Holmes, dublê de Daniel Radcliffe na saga Harry Potter, é um desses roteiros ocultos. Em um depoimento comovente à BBC, Holmes revisita o episódio que mudou sua vida — o acidente de 2009 que lhe partiu o colo e o deixou paraplégico — e demonstra como a memória e o sentido atribuídos à experiência podem reframear uma existência inteira.
Aos 24 anos, Holmes era o rosto em movimento das cenas de maior risco da franquia. Em 2009, ao realizar uma sequência em que o jovem bruxo enfrenta uma serpente, ele estava preso em um sistema de imbragagem e colidiu com violência contra um muro. O impacto quebrou-lhe o pescoço; desde então, passou a usar cadeira de rodas. Ainda assim, sua narrativa não é construída sobre arrependimento. “A coisa de que mais me orgulho é que eu me quebrei o colo e continuei o mesmo por dentro”, diz Holmes, agora com 45 anos.
O que atraente nessa história não é apenas a coragem física que definia sua carreira, mas a elegância com que ele tratou a própria dor. Holmes admite ter perdido quase uma década da vida após o acidente — “perdi um decênio” —, mas recusou-se a ser engolido pela raiva ou pelo vitimismo. Reconheceu, com honestidade quase austera, que escolheu uma profissão perigosa e que o infortúnio não foi fruto de culpa direta de terceiros. E, nesse gesto de aceitação, há um eco cultural: ele escolheu preservar a memória coletiva associada a Harry Potter como um lugar de consolo, sobretudo para crianças em zonas de conflito que encontram na obra um sentimento de segurança.
Holmes também optou por não processar a produção — a apólice de seguro cobriu os custos e isso lhe foi suficiente. “Quero focar na minha recuperação”, afirma. Essa decisão carrega o subtexto ético de alguém que enxerga além do próprio caso, ponderando sobre desigualdades globais: “Conheço tantas pessoas que não podem pagar uma apólice de seguro; não sentiria certa legitimidade em me queixar diante disso”.
Hoje, o dublê retorna ao universo de Hogwarts de forma simbólica: ele interpreta Stan Picchetto, o bilheteiro do Nottetempo, no novo audiolivro de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban a ser lançado em janeiro. Essa reentrada é ao mesmo tempo um ato de fidelidade ao passado e uma reafirmação de que o trabalho artístico supera o corpo ferido — como se o próprio enredo continuasse a operar uma pequena cicatriz luminosa no roteiro da sua vida.
Holmes contou sua história em uma autobiografia, The Boy Who Lived, lançada em italiano pela editora Salani, e em um documentário de 2023, David Holmes: The Boy Who Lived. Mantém uma amizade duradoura com Radcliffe, que o encorajou a dividir sua trajetória. “Ainda não assisti ao documentário; um dia, quando eu não puder mais me levantar da cama, verei”, conta com a franqueza que atravessa todo o relato.
Como analista cultural, vejo em Holmes não apenas o dublê que virou personagem, mas um espelho do nosso tempo: alguém cuja experiência mapeia a tensão entre risco e reparo, memória individual e utilidade coletiva. Sua escolha de não sucumbir à amargura e de transformar o espanto em narrativa pública é um exemplo da semiótica do viral emocional — o modo como uma história pessoal pode persistir e proteger outras dores.































