Por Chiara Lombardi — A recente onda de reexibições mostra que o cinema não é apenas entretenimento: é um espelho do nosso tempo. Nas últimas semanas, títulos como ‘Um Estranho no Ninho’, ‘Frankenstein Jr.’, ‘Mulholland Drive’, ‘Taxi Driver’, ‘A Febre do Ouro’, ‘In the Mood for Love’ e ‘Fitzcarraldo’ retornaram às salas italianas em versões restauradas, encontrando um público surpreendentemente amplo e, sobretudo, jovem.
O fenômeno não é apenas nostálgico. Segundo Gian Luca Farinelli, diretor da Cineteca di Bologna e idealizador do festival ‘Il Cinema ritrovato’, mudou a relação entre exibidores e patrimônio cinematográfico. “Até dez anos atrás éramos vistos quase como marcianos — lembra Farinelli —. Hoje, programar clássicos ao lado das estreias é rotina. E para muitos jovens ver esses filmes na tela grande é uma experiência inédita e preciosa.”
Farinelli fala também como exibidor: o Modernissimo, sala da Cineteca de Bolonha, foi novamente premiado com o Biglietto d’Oro, com 156 mil bilhetes vendidos em 2025, graças a uma programação dedicada à história do cinema. O título mais visto foi ‘The Rocky Horror Picture Show’, que celebrou seu cinquantenário e ganhou estatura de clássico, mostrando como a categoria hoje é usada com mais liberdade.
No calendário das reexibições, a distribuição comercial acompanha a demanda. A Nexo reexibe ‘Pretty Woman’ com Julia Roberts e Richard Gere nos dias 9, 10, 11 e 14 de fevereiro; na primavera está prevista a volta de ‘Moulin Rouge!’ para celebrar seus 25 anos; e a Lucky Red programou ‘Ghost’ como evento único no Dia dos Namorados. Essas operações mostram que há mercado para blockbusters cult bem como para obras de autor.
O que explica essa retomada? Em parte, os festivais — que têm enriquecido suas seções historiográficas — e em parte uma nova estratégia dos exibidores e distribuidores, que ampliaram a presença de títulos de repertório em suas grades. As retrospectivas de Veneza, por exemplo, levaram de ‘Duello al sole’ a ‘Riso amaro’ para uma programação intitulada ‘Classici fuori Mostra. Festival permanente del cinema restaurato’.
Além dos números, há um aspecto cultural: assistir a um filme restaurado na sala é um reframe da realidade — uma oportunidade de rever imagens que ajudam a mapear memórias coletivas e identidades. Não se trata apenas de revisitar o passado com ternura; é olhar para a arte que moldou narrativas, estilos e gaze estética, e perceber como essas obras continuam a repercutir no presente.
O cardápio é plural: há espaço para o experimental e o popular, para o culto e a crítica. Como observa Farinelli, não existe mais um cânone único: o repertório aceita contradições, contrapartidas e encontros inesperados — do filme tido como ‘o mais ruim’ à obra-prima consagrada. É essa diversidade que transforma cada sessão em uma experiência pedagógica e afetiva ao mesmo tempo.
Para o público contemporâneo, em especial os jovens, os clássicos restaurados funcionam como janelas para outras matrizes estéticas e narrativas, um pequeno ato de resistência contra a efemeridade do streaming. Ver ‘Pretty Woman’ ou ‘Taxi Driver’ na tela grande é, mais do que nostalgia, um exercício de memória cultural — e, por isso, um acontecimento que vale a ida ao cinema.

















