Christian De Sica celebra 75 anos em 5 de janeiro de 2026. Nascido em Roma em 1951, o ator construiu uma carreira que transita entre a música, a televisão e, sobretudo, o cinema, seguindo e reinventando o legado do pai, o lendário Vittorio De Sica. Mas sua trajetória não é apenas uma sucessão de títulos: é um espelho do nosso tempo e do gosto popular, o roteiro oculto da sociedade em forma de comédia.
Antes de se firmar como ator, Christian De Sica tentou a sorte como cantor. Nos anos 1970 integrou a banda “La pattuglia azzurra”, ao lado de nomes como Massimo Boldi, e participou do Festival de Sanremo em 1973 com a canção “Mondo Mio”. O retorno modesto do mundo da música o empurrou para o cinema — uma escolha que selaria sua identidade artística e popular.
O cinema o chamou ainda jovem: em 1973 fez uma pequena aparição em “Una breve vacanza”, dirigido por seu pai. Nos anos seguintes, colaborou com cineastas como Pupi Avati (“Bordella”, 1976), Salvatore Samperi (“Liquirizia”, 1979) e Tonino Cervi (“Il malato immaginario”). Paralelamente, participou de programas de TV como “Alle 7 di sera” (1974), “Bambole, non c’è una lira” (1978) e “Due come noi” (1979).
Os anos 1980 representaram a consolidação de sua imagem pública. Em comédias que marcaram a época — como “Mi faccio la barca” (Sergio Corbucci), “Borotalco” (1982, Carlo Verdone) e “Sapore di mare” (1983, Carlo Vanzina) —, De Sica encontrou a química com a plateia. Em 1983, com “Vacanze di Natale”, iniciava-se aquilo que viria a definir grande parte de sua carreira: os chamados cinepanettoni, filmes de massa estreantes no período natalino e que se tornaram fenômeno cultural e comercial na Itália.
Após títulos de sucesso como “Vacanze in America” (1984) e comédias populares dos anos 1980 — “I pompieri” (1985) e “Yuppies – I giovani di successo” —, a parceria com Massimo Boldi prosperou, especialmente nos anos 1990, com filmes como “Vacanze di Natale ’90” e “Vacanze di Natale ’91” (dirigidos por Enrico Oldoini), além de títulos como “Anni ’90” (1992) e “Tifosi” (1999).
De Sica também dirigiu: estreou em 1990 com “Faccione” e, em 1991, assinou e interpretou “Il Conte Max”, um gesto consciente de homenagem ao cinema de seu pai e ao estilo de Mario Camerini — um reframing da memória cinematográfica familiar.
Nos anos 2000, a fórmula natalina se intensificou: a dupla Boldi‑De Sica, muitas vezes sob a batuta de Neri Parenti, protagonizou a série “Natale a…”, com títulos como “Natale sul Nilo” (2002) e “Natale in India” (2003). Depois de um afastamento artístico de Boldi, De Sica retornou aos cinemas em 2006 com “Natale a New York”.
Mesmo associado à comédia popular, Christian De Sica demonstrou alcance dramático em obras como “Il figlio più piccolo” (2010), de Pupi Avati. Entre 2012 e 2014, trouxe sua experiência ao pequeno ecrã como jurado do “Tale e Quale Show” (Rai 1), ao lado de Carlo Conti, exercendo uma função de mediador cultural entre diferentes gerações de espetadores.
Em 3 de abril de 2021, a Rai1 exibiu “Una serata tra amici”, um tributo apresentado por Pino Strabioli, que reuniu memórias, anedotas e afetos, inclusive com a presença do cognato Carlo Verdone e outras figuras que ajudaram a desenhar o mosaico da comédia italiana contemporânea.
Hoje, aos 75 anos, Christian De Sica permanece um fenômeno curioso: ao mesmo tempo produto e produtor do gosto popular. Sua filmografia funciona como um mapa sentimental das festas italianas, uma semiótica do viral pré-internet, que diz muito sobre o desejo coletivo por riso, repetição e pertencimento. Celebrar De Sica é também refletir sobre o cinema como espelho do nosso tempo — e sobre a eterna dança entre cultura de elite e entretenimento de massa.






























