Por Chiara Lombardi — Em um roteiro que parece um espelho do nosso tempo, Chopin volta a pulsar nas luzes e sombras de Paris em Chopin, notturno a Parigi, dirigido por Michał Kwieciński e distribuído pela Europictures. O filme, lançado em 26 de fevereiro nos cinemas, propõe um retrato sensível e febril do compositor quando jovem — um ídolo de 25 anos que vive intensamente, sem medo de rasgar a madrugada.
Na tela, Eryk Kulm assume o papel principal com um rosto que conjuga sensibilidade e magnetismo. Não é apenas a semelhança física que chama atenção: Kulm toca pessoalmente as peças de Chopin e se submeteu a um preparo intenso antes das filmagens. Foram seis meses de treinamento, sendo três exclusivamente dedicados ao piano, supervisionados por Kamil Borkowski, especialista em Chopin. Além disso, aprendeu francês e fez dieta rigorosa para retratar a magreza extrema do compositor — que, na biografia do filme, chegou a pesar apenas 45 quilos.
O resultado é um dandy esguio e encantador, ao mesmo tempo vaidoso e impulsivo: um homem que faz da vida um contínuo concerto social. As composições polonesas, valses e mazurcas marcam as noites parisienses, e sua fama alcança tanto os salões aristocráticos quanto os bordéis mais escuros. Entre festas, passeios e compras compulsivas — 30 pares de luvas de camurça branca, dezenas de coletes de cetim e uma caixa de fragrâncias caras —, o filme mostra um artista que prefere consumir a vida até o fim, fugindo da lentidão que a doença impondo-lhe.
Porque a energia exibida nas festas e na criação fervilhante esconde um segredo trágico: a tuberculose. Os lenços manchados de sangue, a tosse persistente e o prognóstico médico — apenas alguns anos, talvez — acompanham o protagonista como uma sombra constante. Ainda assim, ele recusa a retirada; o seu tempo é de intensidade. Essa tensão entre criação e decadência transforma a narrativa em algo próximo de um nocturne fílmico: notas brilhantes que se apagam sob o risco constante da morte.
Entre as paixões e fugas amorosas, o longa aborda relações íntimas do compositor, inclusive a célebre ligação com George Sand. O filme escolhe um ponto de vista provocador: a impossibilidade de Chopin de se vincular emocionalmente às pessoas na mesma medida em que se doava à sua música. «Ele amava a música; era sua bênção e sua maldição», sugere a leitura da produção. Ser um gênio — e aqui a afirmação ecoa como um refrão doloroso — significa estar apartado, sentir com outra escala e pagar um preço afetivo.
Há também uma nota de metáfora histórica: «O corpo de Chopin está enterrado em Paris, mas o seu coração voltou, por vontade própria, à pátria e hoje repousa na igreja de Santa Cruz, em Varsóvia», recorda o ator, conectando o destino físico do artista ao roteiro oculto da memória nacional. É uma imagem que reforça a ideia do artista como um ícone transnacional, cujo legado atravessa fronteiras e se transforma em espelho cultural.
Por fim, o filme não é só uma biografia tradicional; é um reframing da realidade de um jovem que queria «morder a maçã até o fim». A presença constante da morte, a relação conflituosa com o afeto humano e a devoção total à arte desenham um retrato que vibra entre o brilho público e o colapso privado. Chopin, notturno a Parigi convida o espectador a escutar mais do que ver: a perceber a semiótica do viral e do eterno na música e na vida de um gênio.






















