Por Chiara Lombardi — Hoje, às 21h30, a Rai Movie exibe um dos marcos do cinema crime dos anos 1980: C’era una volta in America. Mais do que um filme, a obra é um espelho do nosso tempo — um roteiro oculto da memória e da identidade americana visto através do olhar europeu de um autor que transformou o gênero em paisagem emocional. Abaixo, reunimos 10 curiosidades que ajudam a ler melhor esse clássico de Sergio Leone, cuja produção, recepção e pós-vida contam tanto quanto a própria trama.
1. Estreia em Cannes (1984)
O filme foi apresentado pela primeira vez no Festival de Cannes em 1984, num momento em que o mercado e a crítica ainda tentavam decifrar o ritmo e a ambição do projeto.
2. Não foi indicado ao Oscar
Apesar da partitura magistral, Ennio Morricone não recebeu uma indicação por este trabalho; curiosamente, Morricone acabou recebendo um Oscar honorário muitos anos depois, em 2007, como reconhecimento de sua carreira monumental.
3. Último capítulo de uma trilogia
Leone concebeu o filme como o último ato de uma trilogia sentimental que inclui C’era una volta il West e Giù la testa. É também seu legado final: Leone faleceu cinco anos após o lançamento.
4. Fotografia de um mestre
A direção de fotografia ficou a cargo de Tonino Delli Colli, cuja câmera transforma paisagens urbanas e interiores em quadros expressivos — a semiótica do viral antes do viral, onde cada plano carrega memórias.
5. Rodado em grande parte na Itália
A despeito da ambientação nova-iorquina, boa parte do filme foi filmada em estúdios e locações italianas, recurso que revela a capacidade do cinema europeu de se transformar em mapa urbano estrangeiro — e ainda assim conservar um olhar autoral.
6. Recepção complicada nos EUA
Nos Estados Unidos, o filme sofreu com cortes e uma montagem distinta, o que comprometeu sua recepção comercial e crítica na época. Um exemplo clássico de como o corte da narrativa pode reescrever a história na cabeça do público.
7. Controvérsia do tempo de exibição
A duração original foi motivo de debate: existe uma versão longa, apreciada por cinéfilos que defendem o ritmo repousado de Leone, e versões reduzidas que alteraram a experiência de muitos espectadores.
8. Três intérpretes para um mesmo personagem
O protagonista, Noodles, é interpretado em diferentes idades por três atores, entre os quais se destaca Robert De Niro na maturidade. A escolha reverbera com o tema da memória fragmentada, do rosto que muda mas guarda a mesma sombra.
9. Pequenos incidentes de set
Produções tão longas e meticulosas acumulam episódios: houve relatos de incidentes menores, incluindo um curioso acidente envolvendo uma tampa de vaso sanitário no set. Episódios que, vistos com distância, tornam-se anedotas do processo criativo.
10. Uma obra que resiste
Quarenta anos depois, C’era una volta in America segue sendo reavaliado. Não é apenas nostalgia: é um reframe da realidade, um filme que convida a leitura histórica e psicológica, e que permanece como um documento cultural sobre memória, traição e redenção.
Assistir hoje na Rai Movie é ocupar uma poltrona no interior de um grande quadro cinematográfico — ver a construção de um passado que é, ao mesmo tempo, criação artística e espelho do presente.


















