Em uma manhã que soa como um espelho do nosso tempo, a Academia britânica revelou as nomeações para o BAFTA 2026 e consolidou um mapa curioso do cinema contemporâneo: no topo, com 14 indicações, está o thriller político de Paul Thomas Anderson, One Battle After Another. Logo atrás vem a epopeia vampírica de Ryan Coogler, Sinners, com 13 indicações. A lista de destaques segue com Hamnet, de Chloé Zhao, e Marty Supreme, de Josh Safdie, ambos com 11 colocações.
Entre os seis concorrentes à estatueta de melhor filme figuram, além desses quatro, o drama familiar norueguês Sentimental Value. As escolhas anunciadas em Londres, no dia 27 de janeiro, traçam um roteiro oculto que combina política, família e o fantástico — um verdadeiro reframe da realidade que os Bafta parecem querer premiar neste ano.
No setor de atuação, a competição masculina reúne nomes e performances de forte recorte emocional: Robert Aramayo é lembrado por I Swear, em que interpreta um homem com síndrome de Tourette; Timothée Chalamet recebeu indicação por Marty Supreme; Leonardo DiCaprio foi indicado por One Battle After Another (marcando sua sétima nomeação aos Bafta); Ethan Hawke aparece por Blue Moon; Michael B. Jordan por Sinners; e Jesse Plemons por Bugonia.
Na disputa feminina, a favorita é Jessie Buckley por Hamnet, que enfrenta Rose Byrne por If I Had Legs I’d Kick You, Kate Hudson por Song Sung Blue, Chase Infiniti por One Battle After Another, Renate Reinsve por Sentimental Value e Emma Stone por Bugonia. Curiosamente, o elenco de One Battle After Another também domina as categorias de atuação coadjuvante, indicando um filme cuja força reside mais em um coro coral do que em um solista.
Do lado dos documentários, a Associated Press conquistou uma indicação por 2000 Meters to Andriivka, de Mstyslav Chernov, um retrato comovente da guerra na Ucrânia coproduzido com a PBS Frontline. A presença de um documentário de conflito nas shortlists reforça a tendência dos Bafta em dialogar com o momento histórico e a memória coletiva — a semiótica do viral que se transforma em peça de museu emocional.
É significativo também o marco pessoal de Leonardo DiCaprio, que com sua sétima nomeação aos Bafta iguala o recorde de lendas como Michael Caine e Daniel Day-Lewis. Essa convergência entre prestígio britânico e carreira hollywoodiana é outro eco cultural que nos convida a pensar sobre como a indústria consolida mitologias contemporâneas.
As escolhas dos Bafta costumam servir como um termômetro das premiações que virão, inclusive do Oscar, mas a lista revela diferenças estéticas: a preferência por um thriller político na dianteira e por uma fábula vampírica tão celebrada falam de um júri atento tanto ao comentário social quanto à reinvenção de gêneros. A cerimônia de premiação acontecerá em um mês, quando saberemos se esses títulos carregarão, além das nomeações, o júbilo das vitórias.
Como observadora do zeitgeist cultural, vejo nessas nomeações não apenas prêmios, mas um roteiro coletivo que reflete ansiedades, nostalgias e a constante busca por narrativas que reconciliam a escala íntima com o cenário de transformação global.






















