Por Chiara Lombardi — Em um enredo que mais parece um roteiro de faroeste tardio do entretenimento italiano, Andrea Pucci desistiu de subir ao palco do Sanremo como co-apresentador. A retirada, anunciada depois de 48 horas de críticas intensas, revela mais do que a crise de uma carreira: expõe o frágil pacto entre provedor de aplausos e responsabilidade pública.
O comediante — muitas vezes autoaclamado como o único comediante de direita — chegou ao convite para o festival como quem entra em cena sem roteiro, confirmando a participação com uma foto sem roupas que virou manchete. Em seguida, veio a colisão com a opinião pública: acusações de piadas sexistas, racistas e homofóbicas, referências explícitas e uma história pregressa de intimidações simbólicas, como as fotografias com Roberto Jonghi Lavarini, o chamado “Barone nero”, em Predappio.
É legítimo perguntar: onde foi parar o tal brio do “homem italico” que outrora se mostrava indômito nas redes e no palco? A resposta talvez more no ponto cego entre a performatividade e a responsabilidade pessoal. Quem celebra vitórias políticas escrevendo “spiace, zecche” em redes e depois alega “insultos e ameaças inaceitáveis” quando a reação vem, está lidando com um roteiro duplo, uma mise-en-scène em que o levantamento de sobrancelhas se transforma em tempestade midiática.
Não é a primeira vez que Andrea Pucci coleciona episódios de recuo público. Em 2023, o prêmio Ambrogino d’Oro, concedido pela cidade de Milão, trouxe à tona um debate: dois conselheiros do PD se ausentaram; o prefeito não vetou, e o próprio Pucci teve que soltar um pedido de desculpas, alegando que, como comediante, poderia ter ofendido alguém involuntariamente.
O contraste com outras presenças no festival como a de Laura Pausini é eloquente: Pausini suportou meses de ataques, fechou comentários e segue de cabeça erguida no palco do Ariston. Já Pucci, que fez piadas que muitos consideraram ultrajantes — incluindo referências de mau gosto sobre homossexualidade e sobre as mulheres — preferiu recuar diante da onda de críticas.
Do ponto de vista sociológico, estamos diante de um fenômeno recorrente: o mito do “courage in branco” — coragem que funciona apenas em bando — esmorece quando a individualidade é chamada para responder. É o roteiro oculto da sociedade contemporânea, onde a exposição online e a memória coletiva instauram uma nova cena de responsabilidade. Em outras palavras, o cabaré está ali como espelho do nosso tempo, e quando a plateia se levanta para vaiar, o artista percebe que o aplauso não é um passe livre.
Haverá quem defenda que o “politicamente correto” mata a sátira; e há exemplos históricos, inclusive nos Estados Unidos, de comediantes que tiveram de pedir desculpas por erros do passado. Também é plausível que, após a repercussão, Pucci veja suas agendas de teatros lotarem por empatia contrária ou curiosidade. Ainda assim, resta um ponto incontornável: a comédia que insiste em depender do insulto fácil acaba por revelar o esgotamento de um repertório, e o público global — com suas lentes históricas e políticas — não aceita mais um simples enredo de impunidade.
Na décima cena desta curta ópera bufa pública, fica o registro de uma transformação cultural. O episódio Pucci-Sanremo não é só sobre um comediante que recua; é sobre um tempo em que o riso é forjado também pela crítica, e onde o palco público demanda, cada vez mais, a consciência do contexto. O cabaré à italiana, portanto, enfrenta seu próprio espelho: não basta provocar, é preciso saber a que custo se faz humor.





















