Anderson Cooper, rosto conhecido do jornalismo americano, anunciou que não continuará como correspondente do programa 60 Minutes da CBS. Depois de quase duas décadas conciliando sua carreira entre a CBS e a CNN, Cooper explicou que a decisão tem um motivo simples e profundo: passar mais tempo com a família enquanto os filhos ainda querem estar com ele.
Em comunicado, Cooper afirmou que ser parte de 60 Minutes foi “um dos maiores honores” de sua trajetória profissional. Ele lembrou as reportagens marcantes que assinou e o trabalho com equipes de alto nível — produtores, editores e equipes técnicas — que ajudaram a transformar matérias em narrativas televisivas memoráveis. Por quase 20 anos, fruto de um acordo de trabalho singular, ele dividiu seu tempo entre o programa investigativo da CBS e seu próprio bloco noturno na CNN, Anderson Cooper 360, no ar desde 2003.
A saída acontece em um momento em que 60 Minutes atravessa um período conturbado internamente. A redação da CBS News expressou gratidão pelos anos de dedicação de Cooper e sublinhou que o programa estará de portas abertas caso ele opte por voltar no futuro. “Compreendemos a importância de passar mais tempo com a família”, declarou a emissora em nota oficial, ressaltando o legado profissional do jornalista.
Mas a decisão pessoal de Cooper não se dá em vácuo: ela ocorre enquanto o programa enfrenta questionamentos sobre escolhas editoriais recentes. Desde o outono passado, após a chegada de Bari Weiss como editora-chefe da CBS News, surgiram tensões perceptíveis. Em dezembro, por indicação da nova liderança, foi adiado no último minuto um relatório da correspondente Sharyn Alfonsi sobre a política migratória da administração Trump. Alfonsi argumentou que eram necessárias novas tentativas para obter entrevistas presenciais com autoridades; nos bastidores, chegou a afirmar que a decisão tinha motivações políticas.
O material acabou indo ao ar somente um mês depois, com respostas adicionais da administração, mas sem entrevistas frente às câmeras. Esse episódio acendeu debates sobre a autonomia editorial do programa e sobre o que alguns descrevem como um “reframe” na condução jornalística da emissora — uma mudança no roteiro que altera o reflexo que 60 Minutes devolve ao público, no espelho do nosso tempo.
Mais do que uma saída formal, a decisão de Anderson Cooper assume contornos simbólicos: é a escolha de um profissional em busca de equilíbrio entre a intensidade da vida pública e a urgência íntima de presenciar a infância dos filhos. Para quem acompanha a história da televisão, trata-se de um gesto que ressoa além do estúdio — como se um personagem-chave saísse de cena, convidando-nos a ler as entrelinhas do agora e a repensar o roteiro oculto da sociedade.
Enquanto 60 Minutes segue com sua reputação consolidada, a saída de Cooper deixa interrogações sobre o futuro próximo do programa e sobre a dinâmica interna da CBS News. Resta saber se este capítulo será apenas uma pausa pessoal ou o início de uma nova fase editorial para um dos formatos mais emblemáticos do jornalismo televisivo americano.






















