Alessandro Haber, ator cuja presença na cena italiana funciona como um espelho do nosso tempo, completa 79 anos. Nascido em Bolonha em 19 de janeiro de 1947, Haber construiu uma trajetória que atravessa geografias e linguagens — da infância em Tel Aviv ao set de filmagem, onde, como ele mesmo disse, comunicar com a voz e o corpo é sua vocação.
A história que nos interessa aqui não é apenas a de uma carreira premiada — embora esta exista: ao longo dos anos Haber ganhou um David di Donatello, um Globo d’oro e cinco Nastri d’argento —, mas o roteiro oculto que sua vida traça entre memórias pessoais e escolhas artísticas.
Com apenas nove anos de idade retornou à Itália com a família, depois de uma infância passada em Israel. Essa geografia de ida e volta não é apenas um dado biográfico; é um traço da sua semiografia artística, uma espécie de reframe que colore papéis e decisões: a especificidade do exílio e do retorno, a presença do estrangeiro dentro da própria pátria, a tensão entre memória e representação.
Seu primeiro papel no cinema aconteceu em 1967, como Rospo em La Cina è vicina, dirigido por Marco Bellocchio. Foi um ponto de partida discreto, mas já então havia ali a clareza de um ator que usa o corpo como índice — cada gesto carrega uma história, cada silên cio sustenta uma escolha. No set, Haber encontra a sua casa profissional: “Comunicar, com a voz e o corpo, é a minha vocação. No set me sinto bem, em casa. Ormai non so più dove finisce l’attore e inizia Haber” — uma confissão que revela o límite fluido entre personagem e intérprete.
Ao celebrarmos seus 79 anos, vale olhar para a carreira como um catálogo de espelhos culturais. Haber não é apenas intérprete de personagens; é um ator que muitas vezes serve de lente para mudanças sociais e estéticas. Seus papéis atravessaram o cinema de autor, o teatro e a televisão, mantendo uma coerência de intensidade e fisicalidade. Essa presença contínua explica parte dos reconhecimentos recebidos pela crítica e pelos prêmios.
Mais do que acumular troféus, a trajetória de Haber nos convida a pensar sobre identidade performativa: até que ponto a imagem pública espelha um corpo privado? O teatro e o cinema, no seu caso, funcionam como espaços de negociação entre memória íntima e arquivo coletivo. Assistimos, portanto, não apenas a um ator envelhecer, mas a um repertório se tornar parte do imaginário cultural.
Hoje, ao festejar os 79 anos de Alessandro Haber, a comemoração se dá também na leitura crítica de sua obra: cada papel é um fragmento de um mosaico maior, o roteiro de uma vida que dialoga com a História. E, como todo bom filme que resiste ao tempo, sua filmografia nos pede um olhar atento — não para o brilho passageiro, mas para a duração, para o eco cultural que perdura.






















