Por Chiara Lombardi — No cenário do crime organizado que moldou o século XX, poucos nomes funcionam como espelho do nosso tempo tão bem quanto Al Capone. Nascido em 17 de janeiro de 1899 em Brooklyn, quarto dos nove filhos de imigrantes italianos — Gabriele Capone, barbeiro de Castellammare di Stabia, e Teresa Raiola —, Capone tornou-se o rosto público do submundo de Chicago e um ícone da era da Lei Seca.
Foi em 25 de janeiro de 1947, em sua propriedade em Miami, que o homem conhecido pelo apelido de Scarface morreu aos 48 anos. A trajetória do gangster — da ascensão violenta ao declínio marcado por prisões e pela sífilis — já foi reencenada inúmeras vezes na tela grande. Entre essas releituras, permanece memorável a interpretação de Robert De Niro em 1987, sob a direção de Brian De Palma, em The Untouchables – Gli intoccabili.
Como observadora cultural, proponho olhar para essa sobreposição entre filme e fato como um estudo da semiótica do viral: o cinema não só conta uma história, ele reescreve o imaginário coletivo. O longa de De Palma funciona como um reframing da realidade — um roteiro que seleciona, amplifica e inventa para compor um enredo dramático e moral. A grande questão é: o que permanece do homem real por trás da máscara cinematográfica?
Algumas diferenças essenciais merecem ser lembradas. O filme opta pelo gesto simbólico e pela cena emblemática — a famosa sequência que homenageia O Encouraçado Potemkin é mais ato de linguagem do que reconstrução documental. Na prática, a vida de Al Capone envolveu uma carreira de crimes que culminou na condenação por sonegação fiscal em 1931, um tempo em Alcatraz e uma posterior libertação por motivos de saúde, quando já sofria com complicações neurológicas.
Ao mesmo tempo, o cinema centraliza conflitos, encena duelos morais e muitas vezes cria personagens e confrontos simplificados para dar ritmo à narrativa. A figura de Eliot Ness e de sua equipe — celebrizada em The Untouchables — vira arquétipo do agente incorruptível, enquanto a realidade histórica é sempre mais fragmentada, feita de redes, cumplicidades e ambivalências. É nesse ponto que o filme atua como roteiro oculto da sociedade: oferece uma versão catártica, uma conclusão moral que a história, por si só, raramente entrega.
Recontar Capone é, portanto, recontar o modo como a sociedade escolhe lembrar sua própria violência. A performance de De Niro permanece magistral porque transforma um criminoso em personagem trágico — não para absolver, mas para nos forçar a ver as camadas humanas sob o mito. E é exatamente nessa sobreposição entre mito e documento que reside o interesse cultural: entender o que o cinema decide enfatizar diz tanto sobre a obra quanto sobre o momento em que ela foi produzida.
Nesta série de cards, seguiremos desvendando as diferenças entre a ficção e a realidade: da cronologia dos eventos às nuances da doença que o diminuiu, passando pela estética de De Palma que transformou episódios históricos em cenas de fábula urbana. Porque, como em um bom filme, o que importa muitas vezes não é só o que aconteceu, mas o modo como escolhemos contar.






















