À voix basse, o comovente e corajoso novo filme de Leyla Bouzid, chega à Berlinale 2026 trazendo à tona um tema tão íntimo quanto político: a condição e os silêncios da homossexualidade na Tunísia. Com um olhar que não procura consolo fácil, Bouzid assina uma obra que funciona como um espelho do nosso tempo, onde escolhas afetivas chocam-se com códigos familiares e sociais preservados como roteiros antigos.
No centro da narrativa está Lilia (Eya Bouteraa), que retorna de Paris a Susa para o enterro de um tio. Logo se insinuam as pistas: o tio era homosexual, e sua morte carrega sombras de segredo. As irmãs da família, incluindo a mãe, interpretada com precisão por Hiam Abbass, preferem o silêncio e a negação a qualquer confronto com essas evidências.
Lilia, por sua vez, vive uma intensidade dupla: é ela mesma — e está com sua companheira Alice (interpretada por Marion Barbeau) — mas trouxe a parceira ao país apenas para depois deixá-la em um hotel, numa tentativa de prudência. Quando a verdade vem à tona, exige-se dela uma explicação pública e dolorosa: explicar a vida e as escolhas a uma mãe que prefere o não-ver.
O filme coloca em cena uma constatação social incisiva: na Tunísia a homossexualidade masculina é perseguida, enquanto a feminina costuma ser apagada porque considerada inconcebível. Bouzid retoma, com afiada sensibilidade, o fio que já havia tecido em sua obra anterior — em Uma história de amor e desejo ela tinha mirado os preconceitos masculinos — e volta a confrontar, sem para-olhos, as tensões entre desejo e tradição.
Com uma câmera que observa em close as pequenas traições do cotidiano e com performances que abandonam a declamação pelo detalhe, À voix basse explora a força necessária para ser você mesmo e o preço dos condicionamentos familiares. A protagonista tenta encontrar um equilíbrio: navegar entre a fidelidade ao afeto e o peso da hipocrisia social. No final, a sua escolha torna-se o dilema moral do filme — optar pelo coração ou pela manutenção de aparências.
O trabalho de Bouzid não é apenas um relato sobre uma realidade regional; é um estudo de caso sobre como as identidades se chocam com narrativas históricas e afetivas. Em um contexto culturalmente marcado pela religiosidade, pela taxa de visibilidade pública e por um imaginário coletivo que muitas vezes não contempla o desejo feminino, o filme funciona como um reframe da realidade — uma janela que nos obriga a questionar o roteiro oculto da sociedade.
À medida que À voix basse percorre Susa e atravessa o interior das casas, o longa revela camadas: o silêncio familiar, a cumplicidade que se esgarça, e a resiliência de quem insiste em existir. É cinema que incide sobre a memória afetiva e política de uma nação, e ao mesmo tempo eco cultural que reverbera além das fronteiras, lembrando que o confronto entre amor e hipocrisia é um tema universal.
Em suma, o filme confirma Leyla Bouzid como uma cineasta capaz de abordar temas arriscados com precisão moral e esteta. Para o público da Berlinale, À voix basse é mais que narrativa: é um convite a ver, ouvir e repensar, como quem lê um roteiro contemporâneo escrito nas dobras da intimidade coletiva.
Publicado em 13 de fevereiro de 2026.

















