Milão — A proposta de reformular o calendário escolar italiano voltou ao debate público após declarações da ministra do Turismo, Daniela Santanchè, no Terceiro Fórum Internacional do Turismo, em Milão. A ideia apresentada prevê reduzir em cerca de dez dias as férias de verão e redistribuir esse período de descanso ao longo do ano escolar. Segundo a ministra, o objetivo é “reduzir a superlotação sazonal e favorecer fluxos turísticos difusos”.
Imediatamente, o ministro da Educação, Giuseppe Valditara, respondeu que, por enquanto, “não há nenhuma proposta concreta sobre a qual trabalhar para a revisão do calendário escolar”. Eventuais mudanças, afirmou, serão avaliadas oportunamente. Apesar da cautela do ministério, o tema já circula com rapidez: nas conversas entre pais, nas salas dos professores, nas negociações sindicais e entre operadores do setor turístico.
O debate não se limita a um ajuste de datas: trata-se de uma questão que envolve escola, trabalho, serviços e políticas de bem-estar social. Para muitas famílias, a organização das férias escolares determina a gestão dos filhos durante os períodos de fechamento das instituições e acaba refletindo desigualdades reais no acesso a cuidados e atividades.
A Itália é um dos países europeus com mais semanas de recesso estival: são 14 semanas de férias, um número que só divide o posto com a Albânia e a Letônia. Pior na contagem aparece Malta, com 135 dias de pausa segundo dados da Eurydice. A própria proposta de Santanchè segue discussões já iniciadas em regiões como a Emilia-Romagna, onde, há cerca de um ano, a assessora para o Bem-Estar, Infância e Escola, Isabella Conti, propôs um modelo de “Spring Break” à italiana: aumentar os dias de aula em junho para liberar uma pausa na primavera.
O apoio a mudanças no calendário vem em grande parte do setor do turismo, que vê na redistribuição de férias uma chance de evitar picos de procura e de incentivar fluxos mais homogêneos ao longo do ano. Organizações como o Moige também se declararam favoráveis. Antonio Affinita, diretor-geral do Moige, considerou “positiva e compartilhável a proposta de reduzir dez dias da pausa estival para redistribuí-los ao longo do ano”.
Movimentos sociais e entidades como WeWorld Onlus, ativistas independentes e iniciativas de pais (entre elas campanhas como “Ristudiamo il calendario”) apoiam a reavaliação do calendário. A campanha já reuniu mais de 77 mil assinaturas a favor de manter escolas abertas em junho e julho com atividades extracurriculares e de uma remodulação das pausas, além de defender o tempo integral obrigatório dos 3 aos 14 anos para ampliar escolhas e suporte às famílias.
Em contrapartida, os sindicatos de professores se posicionam contra alterações precipitadas. A Flc Cgil classificou a hipótese como “errada em todos os pontos de vista” e solicitou que o assunto seja arquivado; o sindicato teme que soluções de curto prazo possam comprometer a unidade nacional do sistema e levar a uma regionalização inadequada do calendário. Marcello Pacifico, presidente da Anief, alertou ser “irrealista manter as escolas abertas no verão”, destacando a necessidade de preservar o bem-estar de estudantes e profissionais. Também a Gilda dos Professores qualificou a proposta como “improvisada”.
Modelos adotados em outros países europeus variam: em algumas nações, o tempo de verão é menor e o ano letivo é pontuado por várias pausas regulares, muitas vezes escalonadas por zonas para evitar concentrações simultâneas de turmas em férias. Esses exemplos alimentam o debate sobre alternativas possíveis para a Itália.
Enquanto isso, a ideia projetada em Milão continuará a ser discutida em vários fóruns: entre autoridades centrais e regionais, nas instâncias sindicais e junto às associações de pais. Qualquer decisão implicará equilibrar interesses educacionais, organizativos e econômicos, com atenção especial aos impactos sobre as famílias mais vulneráveis.






















