A pesquisa anual do Observatório sobre orientação escolar do portal Skuola.net, com mais de 1.000 estudantes na fase final do ensino básico, revela que o ascensor social começa a emperrar já na escolha da escola. O nível de formação dos pais orienta o futuro dos filhos com força superior à das aptidões individuais, redesenhando trajetórias acadêmicas e profissionais ainda na adolescência.
Em termos sistêmicos, a família atua como um filtro invisível: decisões que parecem neutras, tomadas num momento crítico, replicam e reforçam desigualdades. Enquanto os jovens afirmam escolher por paixão e talento, os números mostram um padrão distinto. O currículo educacional dos pais — e o capital cultural que ele carrega — produz efeitos comparáveis a uma infraestrutura social que define quais portas permanecem abertas.
Influência familiar e percepções de autonomia
O estudo indica que os estudantes com pais formados percebem uma influência familiar maior do que pares vindos de lares com menor escolaridade. Entre filhos de pais universitários, 34% relatam um peso parental “alto” ou “máximo” na decisão da escola secundária, valor cerca de 10 pontos percentuais acima do observado em famílias com pais apenas diplomados ou com ensino médio incompleto.
Por outro lado, nas famílias com menor instrução a percepção tende ao contrário: 45% dos filhos de pais diplomados e 40% daqueles cujos pais pararam no ensino fundamental avaliam o peso familiar como “baixo” ou “nulo”. Essa sensação de autonomia é, contudo, ambígua: onde falta um orientação escolar culturalmente estruturada, os jovens estão mais expostos a escolher sem suporte técnico ou informacional, como se caminhassem sem mapas num nó urbano complexo.
Horizontes distintos: imediatismo versus planejamento
As expectativas temporais espelham a escolaridade dos pais. Entre quem tem pais universitários, 29% escolhem uma escola que “deixe mais portas abertas”, contra 16% entre aqueles com pais com apenas o ensino fundamental. No extremo oposto, 20% dos filhos de pais com escolaridade limitada buscam um diploma com aplicabilidade imediata no mercado de trabalho, frente a apenas 3% dos filhos de laureados.
A atitude frente à universidade também muda conforme o contexto familiar. Preparar-se para o ensino superior orienta 20% dos jovens com pais graduados, mas apenas 11% daqueles cujos pais têm escolaridade reduzida. Curiosamente, o percentual sobe para 25% quando pelo menos um dos pais é diplomado, o que sugere que o diploma funciona como um limiar crítico na transmissão de aspirações acadêmicas.
Impacto social e considerações finais
Do ponto de vista da mobilidade social, trata-se de um mecanismo estrutural: lares com maior escolaridade permitem arquiteturas de escolha mais complexas e de maior horizonte temporal; lares menos escolarizados priorizam segurança econômica imediata. Em termos de políticas públicas, o diagnóstico exige intervenções que não apenas informem, mas reconfigurem os alicerces culturais que orientam decisões tão determinantes quanto a escolha do ensino secundário.
Em linguagem de infraestrutura, o que vemos é uma rede com nós desigualmente fortalecidos: alguns jovens têm acesso a roteadores de oportunidades que mantêm um fluxo de informação constante; outros ficam em sub-redes com latência alta, onde respostas imediatas ao emprego se sobrepõem ao planejamento de longo prazo. Corrigir esse descompasso exige reforçar os canais de orientação e os pontos de acesso ao conhecimento, para que o ascensor social volte a operar com mais equidade.






















