Em um capítulo potencialmente decisivo da regulação digital, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, sobe hoje ao banco de testemunhas em um processo na Califórnia que examina até que ponto as grandes plataformas sociais foram projetadas para atrair e reter menores com fins lucrativos. O julgamento, acompanhado com atenção global, concentra-se nas alegações de que serviços como Facebook e Instagram contribuíram para danos à saúde mental de adolescentes e criaram mecanismos de dependência.
Com 41 anos, Zuckerberg é a figura central deste processo que pode estabelecer um precedente legal com impacto direto em milhares de ações já movidas por famílias nos Estados Unidos contra as principais plataformas de mídias sociais. A importância do depoimento transcende a sala de audiências: estamos diante de uma potencial mudança nas regras do jogo para a indústria tecnológica, com consequências para modelos de negócios, compliance e governança corporativa.
Como economista e estrategista, observo que o setor tecnológico opera como um conjunto de motores interligados: algoritmos, produtos e modelos de monetização formam a calha por onde circula atenção — e dinheiro. A pergunta central do processo é se houve calibragem deliberada desses motores para maximizar tempo de uso, mesmo quando o público inclui menores cujas vulnerabilidades psicológicas são bem documentadas.
O resultado do julgamento pode acionar freios regulatórios e redirecionar a aceleração de tendências que vinham beneficiando plataformas digitais. Para investidores e executivos, é um momento de reavaliação de risco: políticas internas, design de produto e disclosure regulatório podem precisar ser redesenhados para reduzir exposição a litígios e preservar confiança pública.
Do ponto de vista jurídico, se o tribunal reconhecer que as plataformas conscientemente exploraram menores, abre-se caminho para responsabilização ampliada e potenciais compensações significativas. Para as famílias autoras das ações, trata-se de busca por responsabilização e justiça; para a indústria, é um teste de sustentabilidade do atual modelo de monetização baseado na maximização da atenção.
Além do aspecto jurídico e econômico, o julgamento reacende debate público sobre ética no design de produtos digitais e proteção da infância em um ecossistema globalizado. Reguladores, conselhos de administração e fundos de investimento estarão atentos aos desdobramentos: eventuais medidas punitivas ou mudanças na jurisprudência impactariam não só a Meta, mas todo o setor.
Minha leitura estratégica é que o depoimento de Zuckerberg funciona como sinalizador para mercados e reguladores — um momento de calibragem que exigirá respostas inteligentes e proporcionais por parte das empresas, combinando governança robusta, inovação responsável e transparência com usuários e autoridades.
Enquanto a audiência se desenrola, mantenho a convicção de que o equilíbrio entre inovação e proteção social será o verdadeiro teste de performance para as grandes plataformas. O motor da economia digital precisa operar com tolerância zero a desenhos de produto que potencializem danos a públicos vulneráveis; caso contrário, os freios regulatórios tenderão a acelerar.






















