Por Stella Ferrari — Em um momento de calibragem de políticas e revisão de estratégia institucional, o World Economic Forum (WEF) está avaliando a possibilidade de transferir – definitivamente ou de forma rotativa – seu encontro anual tradicionalmente sediado em Davos. A informação, antecipada pelo Financial Times, revela discussões internas lideradas por Larry Fink, presidente da BlackRock e co-presidente interino do conselho do WEF, sobre alternativas que vão de uma mudança permanente a um modelo de sedes itinerantes.
Na prática, Fink tem defendido uma remodelagem do fórum: menos clube fechado das elites e maior escuta ativa nos locais onde o “motor da economia” de fato opera. Em postagem no seu blog, ele sugeriu que além de Davos o fórum também deveria marcar presença em cidades como Detroit, Dublin, Jacarta e Buenos Aires. A proposta mira uma aceleração de tendências inclusivas, amplificando vozes além de chefes de Estado e executivos de alto escalão.
Fontes envolvidas nas conversas, citadas pelo Financial Times, indicam que a dimensão do evento excedeu a capacidade logística do vilarejo alpino que abriga o encontro há quase seis décadas. O crescimento do evento — hoje um encontro de cinco dias que atrai dezenas de milhares de participantes — criou gargalos em alojamento, aumentou os custos de segurança e tensionou as limitadas infraestruturas físicas locais. “O fórum se tornou vítima do seu próprio sucesso”, disse uma das fontes ao jornal.
Problemas práticos foram evidenciados por relatos de longas filas e três horas e meia de trânsito para acessar a vila durante esta edição, segundo membros seniores do próprio WEF. A expectativa de participação recorde e a presença anunciada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tendem a complicar ainda mais a logística e a segurança do encontro.
Do ponto de vista político-diplomático, há também uma preocupação clara: para o governo suíço é estratégico que o WEF mantenha laços estreitos com a Suíça, e muitos dirigentes consideram prioritário que o fórum permaneça na Europa. Ainda assim, a discussão sobre sedes rotativas busca conciliar essa prioridade com a necessidade de tornar o evento mais representativo e funcional.
As conversas ocorrem no contexto de mudanças na liderança do WEF. Larry Fink e André Hoffmann, vice-presidente da Roche, assumirão como presidentes interinos do conselho em agosto. O fundador do foro, Klaus Schwab, renunciou em abril após denúncias relacionadas a irregularidades de governança. Uma investigação posterior não encontrou evidências de crime, mas apontou algumas irregularidades, abrindo uma nova fase de revisão institucional.
Na minha leitura, como estrategista de mercado com olhos treinados para design institucional, o WEF enfrenta hoje uma curva de aprendizado importante: ou inventa novos instrumentos para manter sua relevância global — descentralizando presença e ampliando a base de diálogo — ou corre o risco de ver sua influência reduzida por críticas de elitismo e por limitações operacionais. A proposta de sedes como Detroit e Dublin revela uma intenção clara de reposicionamento — uma mudança de marcha que pode redefinir o papel do fórum no xadrez das políticas públicas e da governança corporativa global.
Em termos práticos, qualquer transição exigirá ajustes finos: acordos com governos anfitriões, investimentos em infraestrutura, recalibração dos custos de segurança — verdadeiros “freios fiscais” e operacionais que demandarão uma engenharia de execução precisa. Ainda assim, se bem feita, a estratégia de rotatividade pode transformar o WEF de um encontro montado sob condições alpinas específicas para uma plataforma móvel que acompanha as frentes de inovação e produção do século XXI.
Conclusão: a discussão não é apenas geográfica; trata-se de repensar o design do fórum para manter sua força de atração e sua legitimidade. A economia global, como um motor complexo, exige eventos que se adaptem à sua dinâmica — e o WEF parece pronto para testar novas marchas.






















