O esvaziamento das áreas internas da Itália não é um fenômeno de ocasião: é o resultado de uma trajetória que se enraizou desde a segunda revolução industrial. A grande migração do século XX rumo às cidades teve dimensão econômica, cultural e política: mudou padrões de vida, redesenhou expectativas e foi apoiada por políticas públicas e incentivos que associaram o progresso à urbanização. Na época, a promessa era tangível — emprego estável, serviços, valorização patrimonial — mas hoje essa promessa se dissolveu enquanto a dinâmica de deslocamento permanece.
O mito urbano transformou a cidade não só em um lugar, mas em uma forma do espírito. A ideologia do progresso impôs um duplo imperativo: produzir e consumir. O território foi colonizado pela produção; o consumo e a representação concentraram-se nos centros metropolitanos, onde se manufaturavam desejos, status e identidades. A cidade funcionou como laboratório do futuro e passou a atrair não apenas por oferecer mais bens, mas por representar “mais” — uma legitimidade social.
Hoje, porém, as metrópoles já não têm o mesmo poder decisório e produtivo de outrora. Os custos de vida escalam, salários reais estagnam, o emprego se precariza e a iniciativa empreendedora encontra freios. O tecido urbano alimenta-se de imagem: serviços de alto valor simbólico, finanças e burocracia que frequentemente replicam-se em circuitos autorreferenciais. Enquanto isso, o divisor infraestrutural entre as cidades e as áreas internas diminuiu. Por que, então, persiste o êxodo? Porque o que se busca não é sempre uma melhoria material, mas a representação do resgate.
Esse fenômeno revela outra verdade incômoda: o símbolo tem peso maior que a substância. A cidade oferece pertencimento e legitimação — sinais sociais que passam a valer mais do que oportunidades reais. A fabricação de necessidades e identidades sustentou uma narrativa em que os territórios “estão mal” na medida em que não se parecem com a cidade. É uma tautologia política que mantém o motor da desigualdade territorial em funcionamento.
Um capítulo crítico dessa história é a denatalidade. A queda das taxas de nascimentos não é um defeito colateral; é uma função do sistema que emergiu. Décadas de agendas públicas dominadas por apocalipses — climáticas, sanitárias, financeiras, geopolíticas — transformaram o futuro em ameaça. Nesse cenário, ter filhos é frequentemente percebido como um gesto de risco e irresponsabilidade. A política do medo prepara o terreno para prescrições de renúncia: menos mobilidade, menos propriedade, menos direitos sob o pretexto da segurança.
A normalização da renúncia entrou no senso comum como virtude cívica. Valores como família, transmissão e estabilidade foram corroídos por uma cultura que privilegia a atomização, o adiamento e a precariedade. A parentalidade passou a ser vista como extravagância, enquanto a esterilidade social é celebrada como avanço. É a marca de uma era que transformou a extinção demográfica em solução administrativa para problemas estruturais.
Do ponto de vista de estratégia pública e econômica, é preciso recalibrar o projeto nacional: redesenhar o modelo urbano para que ele não seja mais uma promessa vazia, mas um motor de oportunidades reais nas regiões. Em vez de enxergar as comunidades rurais como um erro histórico, devemos integrar infraestrutura, serviços, incentivos ao empreendedorismo local e políticas familiares que revertam a inclinação ao abandono. A arquitetura das políticas públicas exige a mesma precisão de um motor de alta performance: diagnóstico fino, peças bem calibradas e manutenção contínua.
Se a Itália quer evitar que seus vilarejos continuem a ser museus de uma economia que mudou, é preciso recuperar o mérito da política: transformar representação em substância. Só assim a nação poderá reequilibrar seu mapa demográfico e redimensionar o seu projeto de futuro — com menos estética e mais engenharia de resultados.






















