Por Stella Ferrari — UniCredit está estruturando duas operações destinadas ao transferência de risco sobre carteiras de crédito que somam aproximadamente €5 bilhões. Sob a liderança de Andrea Orcel, o grupo prepara uma manobra que envolve um portfólio de empréstimos corporate no valor de €3,5 bilhões e uma carteira de crédito ao consumo de cerca de €1,5 bilhões, com assinaturas contratuais esperadas até março de 2026, se as negociações com investidores se confirmarem.
Essas operações usam o instrumento conhecido como Significant Risk Transfer (SRT), frequentemente implementado via títulos tipo credit-linked notes. Na prática, trata-se de uma forma de seguro sobre parte dos créditos da instituição: ao transferir risco a investidores, o banco reduz o absorção de capital regulatório e melhora seus índices patrimoniais, ganhando mais latitude para a concessão de novos financiamentos a famílias e empresas — uma verdadeira calibragem do motor financeiro que permite maior aceleração do crédito sem pressão imediata sobre o capital.
O recurso a SRT tornou-se recorrente na estratégia de gestão de risco do banco. Em novembro do ano passado, o grupo já havia concluído uma transação similar para sua divisão na Áustria, sinalizando que a tática é parte de uma tendência consolidada de otimização do balanço. Os termos finais — montantes precisos e cronograma exato — ainda estão em negociação com potenciais subscritores e podem ser ajustados conforme o andamento dos diálogos.
O crescimento desse mercado de transferência de risco está intimamente ligado às fases finais de Basileia III, que apertaram os requisitos de capital para os bancos. Diante de regras mais exigentes, as instituições financeiras buscam meios sofisticados para aliviar a carga regulatória sem reduzir o apoio ao segmento real da economia. Nesse cenário, as SRTs e as cartolarizações “cash” públicas emergem como soluções técnicas que preservam a capacidade de intermediação do sistema bancário.
Do ponto de vista estratégico, a decisão de UniCredit combina prudência e eficiência: por um lado, mitiga risco e melhora indicadores; por outro, preserva a competitividade comercial — algo comparável a otimizar a transmissão em um veículo de alta performance: não se busca potência extra apenas por potência, mas a melhor entrega de torque quando o mercado exige resposta rápida.
Para investidores e observadores, a operação será leitura importante sobre a disposição do mercado em absorver papel vinculado a carteiras corporativas e de consumo em um momento de elevado escrutínio regulatório. Se os contratos forem assinados até o fim do primeiro trimestre, como indicado, o efeito sobre os rácios de capital de UniCredit poderá ser sentido já nos relatórios de curto prazo, com impacto nas estratégias de crédito e no posicionamento competitivo do banco na Europa.
Em suma, a movimentação de UniCredit não é apenas uma manobra contábil: é uma peça do design de políticas internas para equilibrar robustez regulatória e velocidade comercial. A transação tem potencial para influenciar a dinâmica de oferta de crédito, e acompanhar sua execução será essencial para entender a próxima fase de aceleração do crédito bancário no continente.
Stella Ferrari — Economista sênior, especialista em desenvolvimento e mercados financeiros.






















