Stella Ferrari — A recente escalada nas políticas tarifárias dos Estados Unidos colocou o comércio transatlântico sob forte tensão. Após o anúncio do presidente Donald Trump de elevar os dazi globais de 10% para 15%, o Parlamento Europeu já sinaliza uma resposta política: o deputado alemão Bernd Lange, presidente da comissão para o comércio internacional do hemiciclo, propôs a suspensão dos trabalhos legislativos sobre o chamado Turnberry Agreement até que Washington ofereça garantias jurídicas e cumpra os compromissos assumidos.
A decisão norte-americana, com entrada em vigor prevista à meia-noite de 24 de fevereiro, baseia-se em legislação que permite ao presidente impor tarifas até 15% por um período máximo de 150 dias; qualquer prorrogação exige, contudo, a aprovação do Congresso. No plano institucional, este movimento reacende o debate sobre a competência executiva para decisões tarifárias, especialmente depois da recente decisão da Corte Suprema dos EUA, que em votação de 6 a 3 determinou que o presidente não tem autoridade unilateral para impor certos tipos de tarifas sem aval do Congresso.
Em Bruxelas, Lange afirmou: ‘Proponho de suspender o trabalho legislativo até termos uma avaliação jurídica adequada e compromissos claros por parte dos Estados Unidos’. O efeito prático é potencialmente imediato: a ratificação do Turnberry Agreement, negociada no mês de julho passado e aguardando aprovação no Parlamento Europeu, pode ser congelada, convertendo uma etapa técnica em instrumento de pressão diplomática.
Da capital americana, a mensagem tem tonalidade diversa. Jamieson Greer, representante de comércio dos EUA e negociador responsável pelo pacote tarifário da administração Trump, reiterou que ‘os acordos comerciais assinados permanecem em vigor’ e pediu que a UE respeite o espírito dos entendimentos alcançados. Ainda assim, o clima político americano é volátil: Trump atacou a Corte Suprema, chamando a decisão de ‘ridícula’ e ‘antiamericana’, e anunciou medidas alternativas, incluindo um aumento anterior de 10% que ele alegou estar ainda em vigor.
Como economista com foco em estratégias e alta performance, avalio que estamos diante de uma situação que exige precisão de instrumentos, como se estivéssemos recalibrando a injeção de combustível de um motor econômico sensível. A elevação de tarifas em plena cadeia global tem efeito direto sobre custos de importação, cadeias de suprimentos e expectativas empresariais. Para empresas europeias e investidores, a incerteza afeta pricing, hedging e planos de produção, aumentando a volatilidade do comércio e dos mercados.
No plano político, a iniciativa de Lange funciona como um freio deliberado: ao suspender a tramitação do Turnberry Agreement, o Parlamento Europeu busca extrair compromissos jurídicos e operacionais que reduzam o risco de erosão das regras multilaterais. Essa é uma manobra de calibragem diplomática que, bem conduzida, pode traduzir-se em ganhos de previsibilidade — condição essencial para decisões de investimento de longo prazo.
Por fim, é fundamental que a União Europeia mantenha postura simultaneamente firme e pragmática. A suspensão temporária do processo legislativo é um instrumento legítimo de negociação; entretanto, a prioridade estratégica deve ser preservar canais de diálogo para evitar escaladas que poderiam prejudicar consumidores e setores industriais cruciais. A economia global precisa de projetos bem desenhados, não de rupturas impulsivas — e no momento a tarefa é reapertar os parafusos da governança comercial para que o motor transatlântico volte a operar com eficiência.
Stella Ferrari, economista sênior e estrategista de desenvolvimento econômico na Espresso Italia.





















