Por Stella Ferrari — A Comissão Europeia deu hoje um novo e contundente passo na longa disputa com a Meta, acusando o grupo de violar as regras antitruste ao impedir que assistentes de Inteligência Artificial de terceiros acessem e interajam com usuários no WhatsApp. Em resposta, a empresa rejeita as acusações e qualifica o processo como equivocado.
Segundo a notificação formal de addebiti enviada por Bruxelas, a conduta da Meta — que administra plataformas como Facebook, Instagram e serviços de comunicação como WhatsApp e Messenger — pode estar a causar danos concorrenciais graves, ao excluir rivais do mercado emergente de assistentes de IA genericos. A Comissão afirma ainda que pretende aplicar medidas provisórias para evitar danos “graves e irreparáveis” ao funcionamento do mercado, condicionadas à resposta da empresa.
O foco da investigação recai sobre uma alteração promovida pela Meta nas condições do WhatsApp Business Solution, publicada em 15 de outubro, que na prática excluiu assistentes de IA genéricos de terceiros da integração com o WhatsApp. Como consequência, desde 15 de janeiro o único assistente de Inteligência Artificial disponível na plataforma passou a ser o próprio Meta AI, situação que a Comissão considera potencialmente anticoncorrencial.
As apurações, iniciadas em dezembro passado, indicam preliminarmente que a Meta ocupa uma posição dominante no mercado do Espaço Económico Europeu (EEE) relativo às aplicações de comunicação para consumidores, com o WhatsApp atuando como um “ponto de entrada” crucial para os assistentes de IA alcançarem usuários. Ao negar esse acesso, a empresa pode estar a erguer barreiras substanciais à entrada e à expansão de concorrentes, especialmente os menores, que assim ficam em risco de marginalização irreversível.
No equilíbrio entre inovação e competição, a Comissão argumenta que a urgência decorre do risco de comprometimento estrutural do mercado de assistentes de Inteligência Artificial. Se confirmadas as infracções, as medidas provisórias visam preservar a dinâmica concorrencial enquanto se aguarda uma decisão final: é a calibragem necessária para evitar que um único ecossistema dite o desenho das interações digitais.
Do lado da Meta, a reação foi imediata: a empresa rejeita as acusações e insinua que as intervenções regulatórias não devem sufocar modelos de integração que, segundo ela, protegem a privacidade e a segurança dos usuários. O conflito remonta a debates mais amplos sobre o papel das plataformas centrais na arquitectura dos serviços digitais e sobre como conciliar direitos dos consumidores, inovação e livre concorrência.
Para executivos e reguladores, a disputa não é apenas jurídica: é estratégica. Estamos a assistir a uma fase em que o “motor da economia” digital exige tanto velocidade de inovação quanto freios e contrapesos regulatórios para evitar distorções de mercado. A decisão da Comissão — e a eventual imposição de medidas provisórias — constituirá um teste importante sobre a capacidade da União Europeia de manter um campo de jogo competitivo frente a gigantes tecnológicos que controlam infraestruturas essenciais.
A Meta terá oportunidade de responder formalmente às preocupações da Comissão; o processo seguirá com a avaliação técnica e econômica que definirá se as práticas configuram abuso de posição dominante. O desfecho terá impacto direto sobre consumidores, desenvolvedores de IA e a arquitetura futura das plataformas de comunicação.





















