Por Stella Ferrari — A previsão para o mercado automobilístico dos EUA em 2025 aponta para uma leve recuperação: os analistas estimam um crescimento de cerca de 2%, com o volume total de emplacamentos alcançando aproximadamente 16 milhões de veículos. Entretanto, no painel dessa aceleração, o grupo Stellantis surge em movimento contrário, exigindo uma reconfiguração tática de sua operação norte-americana.
Segundo dados compilados pela Cox Automotive e reportados pela Reuters, o conglomerado automotivo deve fechar 2025 nos Estados Unidos com cerca de 1,25 milhões de veículos vendidos — uma retração de 4,4% frente aos mais de 1,3 milhão de 2024. A participação de mercado projetada recua de 8,1% para 7,6%, posicionando a Stellantis na sexta colocação, atrás de General Motors, Toyota, Ford, Hyundai e Honda. Entre os seis maiores grupos, é o único com previsão de queda anual, mesmo com um quarto trimestre estimado em crescimento de 2,1%.
O freio desse desempenho não é apenas de demanda: há um componente estrutural nos estoques. Ao final de novembro de 2025, o inventário total de veículos nos EUA ultrapassou a marca de 3 milhões de unidades. Marcas como Jeep e Ram exibem coberturas de estoque superiores a 125 dias de vendas, entre as mais elevadas do país.
Dentro desse parque de veículos acumulados há modelos do ano anterior ainda por vender. Chama atenção que cerca de 82% das Dodge Hornet plug-in hybrid do modelo 2024 permanecem invendidas — um número que contrasta fortemente com a média setorial reportada (0,4%). Níveis elevados de estoque também foram observados em modelos Jeep Grand Cherokee e em veículos da Alfa Romeo, incluindo a Tonale Hybrid.
Apesar da abundância de oferta, os preços médios seguem sustentados: de acordo com a J.D. Power, o preço médio de transação de um carro novo em dezembro de 2025 ficou em torno de 47.100 dólares, alta de 1,5% sobre o ano anterior. Isso demonstra que, embora os estoques pressionem a dinâmica comercial, a precificação ainda tem resistência — reflexo da combinação entre mix de produtos e estratégia de posicionamento das marcas.
Outro eixo crítico é o recuo na participação dos veículos elétricos (EV). A eliminação dos incentivos federais de 7.500 dólares e o afrouxamento das exigências de emissões e eficiência reduziram a atratividade imediata dos elétricos: a fatia dos EV nas vendas no varejo caiu para 6,6% ao final de 2025, ante 11,2% em 2024.
Para 2026, o consenso dos analistas aponta para um possível arrefecimento do mercado norte-americano, atrelado a uma trajetória de crescimento econômico mais moderada e aos custos associados a tarifas. Movimentos nos juros também podem recalibrar a demanda: uma queda nas taxas tende a liberar capacidade de compra, enquanto um cenário estável ou mais apertado preserva os freios ao crédito.
Do ponto de vista estratégico, a agenda de Stellantis nos EUA deverá priorizar o desinfle de estoques e o reaquecimento equilibrado das vendas, sem comprometer margens. É uma questão de calibragem: como afinar o motor da operação para recuperar share num mercado que, apesar de crescer, muda de marcha em termos regulatórios e de incentivos.
Em suma, a combinação de estoques elevados, mix com modelos defasados e um recuo na penetração dos elétricos exige da Stellantis intervenções cirúrgicas — ajustes de produção, incentivos comerciais seletivos e reposicionamento de portfólio — para transformar capacidade ociosa em tração de vendas.




























