Em nota contundente que sacode o motor da economia automotiva europeia, o diretor-geral da Stellantis, Antonio Filosa, declarou que o projeto do carro elétrico como via única está em fase de reset. A empresa contabilizará uma desvalorização de aproximadamente 22 bilhões de euros para corrigir uma estratégia que, até então, apostava integralmente na transição para a mobilidade elétrica.
O pronunciamento formaliza um diagnóstico: houve uma sobrestimação dos prazos de transição e um desalinhamento entre o produto ofertado e os desejos reais dos consumidores. Em linguagem de engenharia econômica, a curva de adoção foi calibrada com parâmetros de laboratório — não com a dinâmica de mercado — e isso agora exige uma recalibragem de balanço.
Os sinais que levaram ao corte são claros e mensuráveis: as matrículas de veículos elétricos caíram em boa parte da Europa, famílias têm adiado compras importantes, empresas congelaram decisões de renovação de frotas e entregas de veículos têm sofrido atrasos consideráveis. Uma mudança tão profunda não se impõe por decreto político e não se consolida em uma única noite; exige uma engenharia industrial de longo prazo, com diagnóstico de custos, cadeia de fornecimento e aceitação do cliente.
Filosa apontou ainda para o papel de políticas públicas rigidas no modelo adotado. O alinhamento à arquitetura do Green Deal e a dependência dos incentivos e fundos europeus colocaram fabricantes em uma trajetória com margens comprimidas. A decisão de estabelecer um corte firme nos motores térmicos a partir de 2035 e de reduzir substancialmente as emissões no escapamento, com pouco espaço para soluções intermediárias, funcionou como um acelerador de tendências — mas também como um freio para a adaptabilidade industrial.
O resultado prático foi uma pressão sobre uma cadeia que, por décadas, gerou empregos, competências e riqueza. Não houve proibição do mercado de usados, mas a guilhotina sobre novas imatriculações impôs um processo de consumo que favoreceu modelos elétricos em um ritmo que nem sempre correspondeu à realidade econômica das famílias. Agora o ajuste financeiro chega à mesa: veículos que perdem rapidamente valor de mercado e proprietários que ficam com ativos mais difíceis de revender.
O caso Stellantis não é isolado: grandes grupos como Volkswagen e Renault também reavaliaram cronogramas — investimentos em baterias foram postergados e capacidades produtivas foram revistas. A pressão capital para uma transição completa é elevada, enquanto as margens industriais permanecem baixas. Nesse contexto, a concorrência asiática, em especial da China, avança com arquiteturas nativas para a era elétrica, sem o ônus de reconverter linhas centenárias de motores a combustão.
Para consumidores e investidores, a lição é direta: confiar exclusivamente em uma trajetória ditada por políticas públicas, sem levar em conta a realidade de mercado, pode gerar perdas substanciais de valor. O choque vivido agora evidencia que a política industrial precisa de design mais flexível — uma espécie de caixa de ferramentas com opções híbridas, combustíveis alternativos, eficiência e elétrico — em vez de uma única engrenagem a todo vapor.
Na prática, o que Filosa declarou é um convite à reflexão sobre a calibragem de políticas e das estratégias corporativas. A economia real exige pragmatismo: financiamento que sustente a inovação, proteção das linhas industriais, e uma transição que preserve empregos enquanto acelera a adoção de tecnologias mais limpas. A mensagem final é estratégica, não emotiva: o elétrico não desaparece, mas perde o estatuto de caminho exclusivo. É hora de redesenhar a trajetória, com controles de risco e ajustes de mercado — a verdadeira engenharia de uma transição sustentável.






















