Por Stella Ferrari — A recente enxurrada de imagens de Trump — do “Rei” ao “Papa”, do guerreiro Jedi ao passeio com um pinguim na Groenlândia — não é apenas sátira: representa uma estratégia calculada de saturação informativa. Publicadas ou amplificadas por canais ligados à Casa Branca, essas imagens ilustram um fenômeno que os estudiosos já batizaram de slopaganda: propaganda construída sobre o slop gerado por IA, ou seja, um fluxo massivo de conteúdo descartável, barato e replicável projetado para dominar feeds e moldar percepções.
O termo foi discutido em profundidade no paper “Slopaganda: The interaction between propaganda and generative AI”, assinado por Micha Klincewicz, Mark Alfano e Amir Ebrahimi Fard e publicado em 2025. Nele, os autores definem o fenômeno como a intersecção entre propaganda — comunicação orientada a influenciar opiniões e comportamentos políticos — e o volume automatizado de conteúdo gerado por modelos generativos. A conclusão central é que, com a IA, a propaganda não precisa mais ser elegante ou inteiramente crível: ela pode operar como calibragem do ambiente informativo.
Nesse novo design de políticas comunicacionais, o que importa é o que circula, com que frequência e com qual carga emocional. A slopaganda não coincide necessariamente com notícias falsas clássicas; pode incorporar deepfakes, caricaturas, falseamentos sutis e narrativas ambíguas. Sua potência vem da escala e da repetição — o algoritmo recompensa o conteúdo que provoca reação rápida, e a atenção humana, limitada, tende a reagir em vez de analisar. Em termos mecânicos, é como ajustar o comportamento de um motor: pequenas variações repetidas podem mudar a performance do conjunto.
O caso Trump é emblemático porque traz a técnica ao centro da comunicação institucional. Não se trata apenas de uma troll farm tentando infiltrar uma comunidade; é uma escolha adotada de cima para baixo que produz efeito de deslegitimação e multiplicação social. Como o The Guardian observou, uma imagem gerada por IA funciona como um ‘clique seco’ no scroll do usuário: reduz complexidade e reflexões, gerando reação instantânea. O resultado prático é forçar adversários e meios a perseguirem cada visual, esvaziando o debate sobre políticas e focando em simbolismos.
Outro elemento do fenômeno é a emergência dos chamados slopagandists: criadores que praticam política de baixo custo e grande frequência. Relatos do The Verge citam casos como o de Nick Shirley para descrever esse modelo, baseado em conteúdo incendiário, muitas vezes pouco verificado, mas altamente rentável em termos de atenção. Trata-se de uma economia de escopo aplicada à comunicação: volume sobre verificação.
Do ponto de vista estratégico, a slopaganda explora a natureza ambígua e irônica dos memes. O formato meme oferece uma via de fuga justificável — “era só piada” — que aumenta a tolerância social ao discurso agressivo e polarizador. Para quem conduz campanhas políticas, a meta não é mais só convencer com argumentos racionais, mas fixar imagens e associações mentais que moldem percepções a longo prazo.
As implicações são amplas: controles institucionais, moderação de plataformas e alfabetização digital parecem insuficientes se a dinâmica dominante premia velocidade e reação. A slopaganda funciona como um acelerador de tendências: altera prioridades da agenda pública e impõe custos de reação a quem deseja retomar o debate de mérito. Em linguagem de mercado, cria-se volatilidade comunicacional que exige nova calibragem das defesas democráticas.
Como estrategista, vejo a slopaganda como um problema sistêmico e de design. Não basta regular peças isoladas; é necessário redesenhar incentivos das plataformas, políticas de transparência e práticas de comunicação institucional. Sem essa calibragem, a arena pública corre o risco de virar um circuito onde a repetição e o impacto emocional vencem a precisão e o debate informado — uma erosão lenta do capital de atenção e confiança que sustenta decisões coletivas.
Em suma, a chegada massiva de memes e imagens de IA como instrumento deliberado, exemplificada pela Casa Branca e por figuras como Trump, não é mero ruído: é um projeto comunicacional com efeitos mensuráveis. Entender sua mecânica é o primeiro passo para recuperar o motor do debate público e redesenhar freios institucionais eficazes.






















