Por Stella Ferrari — O Salone del Mobile — Milano 2026 chega ao princípio da sua 64ª edição com um sinal inequívoco de vigor: espaços sold out, mais de 1.900 expositores vindos de 32 países, 169 mil metros quadrados de área líquida totalmente ocupada e 227 marcas entre estreias e retornos. Agendada para 21 a 26 de abril na Fiera Milano Rho, a feira reforça seu perfil global e a posição como plataforma de trabalho e relacionamento para o setor de design e mobiliário.
Esses números sustentam a estratégia 2026-2027 do evento, direcionada a tornar mais inteligível a complexidade da oferta e a fortalecer a dimensão cultural e curatorial do Salone. “No meio de uma fase geopolítica e econômica marcada por profundas descontinuidades”, afirma a presidente Maria Porro, o Salone “reafirma seu papel como plataforma estratégica global” e quer ser “um ponto de estabilidade em tempos instáveis”. Porro vincula os resultados a “uma estratégia integrada e de longo prazo”, construída sobre uma rede internacional de relações e missões.
O plano de internacionalização já passou por Reino Unido e Alemanha e, em 2026, segue com etapas na França e Espanha, ao mesmo tempo em que amplia a atenção a mercados considerados prioritários — dos Estados Unidos e Índia até Marrocos, Turquia e Portugal. Essa agenda externa funciona como um sistema de propulsão para a feira, calibrando a presença italiana em mercados com elevado potencial de demanda por projetos e produtos de alto padrão.
Na dimensão de cruzamento com outras linguagens culturais, o Salone estreita o diálogo com o universo da arte. Em Miami foi lançada uma colaboração com a Art Basel, que seguirá em março em Hong Kong por meio de um projeto que envolverá um número ainda maior de empresas italianas. Porro descreve a iniciativa como “uma aliança estratégica” capaz de abrir “uma nova fronteira de contaminação cultural e comercial entre design e arte”. No Oriente Médio, após o evento-piloto Red in Progress com 35 empresas italianas, prepara-se para um encontro estruturado em Riad, em novembro de 2026.
Dentro da Fiera, os pilares do formato permanecem inalterados. Voltam as Bienais: EuroCucina com FTK – Technology For the Kitchen, reunindo 106 marcas de 17 países, e o Salone Internazionale del Bagno, com 163 marcas de 14 países. Completa o ecossistema o SaloneSatellite, com 700 designers com menos de 35 anos e 23 escolas e universidades internacionais; em 2026 o tema central será “Maestria artigiana + Innovazione”, um diálogo entre herança manual e visão tecnológica.
Entre as novidades figura o lançamento do Salone Raritas (pavilhões 9-11), uma plataforma dedicada ao collectible design com 25 expositores, curadoria de Annalisa Rosso e projeto expositivo assinado por Formafantasma. Concebido para estabelecer uma ponte entre produção criativa especial e a demanda profissional por projetos, o Raritas reforça a estratégia de segmentação e sofisticação do evento.
Paralelamente, ganha forma o percurso rumo ao Salone Contract, iniciativa de horizonte mais longo com estreia oficial prevista para 2027 e Masterplan confiado a Rem Koolhaas e David Gianotten (OMA). Em 2026 estão previstas uma lectio de Koolhaas, um dia de Fórum Internacional, um percurso temático entre expositores e um programa de incoming dedicado a operadores e top players globais, seguido por um road tour internacional a partir de setembro.
O resultado é um Salone que atua como motor de conexões comerciais e culturais, onde a aceleração de tendências convive com a necessidade de construção de redes de mercado de longo prazo. Para quem analisa macroeconomia e mercado de luxo, o evento é uma janela para calibrar estratégias de entrada em mercados internacionais e para medir a resposta de demanda por inovação e artesanato de alto valor agregado. Em suma: o Salone segue sendo a calibragem necessária entre oferta criativa italiana e a procura global por excelência em design.





















