Por Stella Ferrari – Espresso Italia
O anúncio feito pelo prefeito Oh Se-hoon de que robotaxi sem condutor começarão a operar nas ruas de Seoul até o final do ano abre um capítulo decisivo na história dos transportes urbanos. A capital sul-coreana, com seus 10 milhões de habitantes, foi colocada pelo próprio governo local como um laboratório em grande escala para a integração da inteligência artificial no ambiente físico: “Seoul está pronta para iniciar a jornada rumo a se tornar um hub global e referência em IA física”, declarou.
Como economista com atuação em mercados globais e olfato por tendências de alto impacto, vejo essa iniciativa como uma clara aceleração de uma mudança estrutural. O que se apresenta como melhoria da mobilidade e eficiência — a prometida comodidade para cidadãos e turistas — convive com riscos concretos para postos de trabalho e para o desenho das prioridades sociais. Estamos diante de uma filosofia que alguns chamam de Postumanismo: a delegação crescente de decisões e operações à máquina.
Essa delegação não é neutra. Sistemas automatizados incorporam os objetivos e prioridades de quem os projeta e financia. Ao confiar viagens, logística e segurança a algoritmos, transfere-se poder a poucos atores — empresas de tecnologia e investidores — cujas métricas de sucesso nem sempre coincidem com o interesse público. É uma redefinição do motor da economia urbana: menos condutores, mais capital intelectual e infraestrutura controlada por operadores digitais.
Seoul não inventou os testes. Phoenix e San Francisco, nos Estados Unidos, e Beijing e Guangzhou, na China, já passaram por experimentos semelhantes. A promessa dos proprietários de tecnologias é a criação de novos empregos e a melhoria da vida urbana. Na prática, porém, a realidade tem mostrado uma dinâmica de substituição: trabalhos de base digital e funções logísticas simples estão sendo varridos, concentrando renda e poder.
Para dimensão do impacto, um estudo da Randstad indica que o setor de transporte e logística na Itália emprega cerca de 1,16 milhão de pessoas entre armazenagem, serviços logísticos e transporte terrestre. Mesmo admitindo possibilidades de reconversão, a escala do deslocamento de mão de obra é relevante — e raramente imediata. A agência Bloomberg indica que empresas que adotaram inteligência artificial há mais de um ano cortaram quase 10% de seu quadro; muitos demitidos não são reabsorvidos pelo setor tecnológico.
O governo metropolitano de Seoul projeta uma expansão substantiva dos robotaxi a partir de 2028. Para países e cidades que observam de longe, o aprendizado é estratégico: a difusão tecnológica pode ser rápida, como mostrou a adoção dos smartphones, e nenhum setor está imune. A massa laboral, muitas vezes lenta para reagir, corre o risco de se tornar passiva perante uma mudança que exige requalificação técnica e políticas públicas de suporte.
Do ponto de vista de políticas públicas e de negócios, a resposta exige três calibragens: investimento em requalificação e educação técnica, regras claras de governança para dados e algoritmos, e mecanismos de proteção social que desacelerem os impactos de curto prazo — os freios necessários para que a aceleração tecnológica não provoque uma devastação social. Sem essa calibragem, corre-se o risco de transferir ganhos de produtividade a poucos e acelerar a erosão de empregos e vidas.
Em suma, a chegada dos robotaxi em Seoul é um teste de alta velocidade para o design de políticas econômicas do próximo ciclo. Cabe aos decisores combinar inovação com equidade, para que o motor da economia urbana não acelere sobre a população, mas sim a leve junto na trajetória de progresso.






















