A inteligência artificial deixou de ser apenas um vetor de inovação para assumir o papel de uma infraestrutura crítica, com implicações diretas sobre segurança nacional, pesquisa sensível e o equilíbrio de poderes entre setor público e privado. Os recentes alertas de executivos de empresas de ponta e o crescente confronto entre plataformas e produtores de conteúdo sobre o uso de dados não são ruídos isolados: são sinais de uma transformação estrutural cujo motor impacta a economia global.
Quando líderes do setor mencionam vulnerabilidades associadas à modelagem de moléculas, à simulação de processos complexos ou à automação de funções cognitivas de alta especialidade, o que está em jogo vai além do tom alarmista habitual. A essência da discussão é que os modelos avançados começam a operar em domínios tradicionalmente vinculados à segurança nacional e ao funcionamento das instituições democráticas. Em linguagem de engenharia, assistimos à integração de um novo componente no motor da economia: potente, de alta performance e, por ora, predominantemente sob tutela privada.
Em resposta, grandes empresas têm desenhado uma espécie de “constituição” interna para a AI: códigos de conduta, regimes de auditoria, limites de utilização e controles sobre clientes e aplicações. Essas ferramentas de autogovernança revelam maturidade e consciência do risco. No entanto, do ponto de vista jurídico e democrático, há um curto-circuito: decisões que restringem pesquisas, acesso a capacidade computacional ou usos de sistemas com elevado impacto social são tomadas em conselhos e salas corporativas, não em arenas legitimadas pelo voto.
Essa assimetria informativa é crítica. Autoridades públicas frequentemente não dispõem da mesma visibilidade técnica sobre os modelos nem da infraestrutura comparável em poder computacional e capital humano. O risco de dependência cognitiva — quando o regulador precisa confiar no regulado para entender o que regula — torna o controle público pouco efetivo. Simultaneamente, os custos de compliance elevados para manter padrões de segurança, auditoria e governança podem virar barreiras à entrada que consolidam incumbents, transformando a safety em mecanismo de proteção de mercado.
O desafio regulatório exige uma calibragem fina: proteger a segurança e a integridade democrática sem acionar freios que prejudiquem concorrência e inovação. Entre as medidas que se impõem, destaco:
- Criação de registros públicos de modelos e checkpoints, para aumentar transparência sem expor segredos sensíveis.
- Licenciamento de acesso a infraestrutura de alto desempenho (compute) por categorias de risco, com critérios claros e temporais.
- Auditorias independentes e mandatórias, financiadas por uma contribuição setorial, com padrões técnicos internacionalmente harmonizados.
- Mecanismos de governança de dados — como data trusts e obrigações de portabilidade — que equilibrem direitos dos criadores e disponibilidade para pesquisa.
- Atuação antitruste ativa para evitar prática que transforme normas de segurança em barreiras competitivas.
- Cooperação internacional para regras export control e intercâmbio de melhores práticas, evitando fragmentação normativa.
Num quadro global competitivo, a estratégia soberana é indispensável. Estados devem assegurar capacidades técnicas próprias — centros de competência em computação e avaliação técnica — e fomentar ambientes regulatórios que promovam concorrência e inovação responsável. Sem essa postura, a governança da inteligência artificial continuará dominada por um trade-off perverso: mais segurança privada em troca de menor pluralidade de atores e menor supervisão democrática.
Como economista e estrategista, observo que a calibragem de políticas requer a mesma precisão de um projeto de engenharia de alta performance: medidas mal ajustadas podem reduzir rapidamente a eficiência do sistema. A alternativa é um design institucional que combine auditoria técnica, regulação inteligente e incentivo à competição — um conjunto de freios e contrapesos que permita à AI exercer seu potencial como força propulsora do crescimento, sem comprometer a resiliência do sistema político e econômico.
Em suma, governar a inteligência artificial é hoje uma questão de soberania econômica e de arquitetura institucional. É preciso recuperar o centro da decisão pública sem sufocar a inovação privada — uma tarefa de alta precisão, onde o talento técnico e a visão estratégica caminham lado a lado, como em uma máquina de alto rendimento que exige alinhamento perfeito entre motor, suspensão e sistema de freios.
Assino, Stella Ferrari — Espresso Italia.






















