Em tempos em que a televisão tradicional busca constante recalibragem, o Festival de Sanremo continua a operar como o verdadeiro motor da atenção coletiva italiana. Na recente conferência de imprensa — com trocas ácidas entre Carlo Conti e autoridades políticas sobre presença no palco — ficou claro que o evento não é apenas um espetáculo cultural, mas uma máquina de gerar receitas e métricas que a Rai domina com eficiência rara.
Os números mais recentes confirmam essa tendência: após uma edição que arrecadou cerca de 65 milhões de euros em publicidade, a edição 2026 caminha para superar esse patamar. A média de audiência em 2025 foi de 12,5 milhões de espectadores por noite, alcançando no seu conjunto mais de 38 milhões de italianos — mais da metade da população — um alcance que nenhum outro produto generalista consegue replicar. Essa massa crítica transforma cada segundo de transmissão em ouro para anunciantes e faz dos intervalos e entradas comerciais itens de luxo.
Com a calibragem dos preços em reação ao crescimento de audiência, os listinos publicitários subiram cerca de 5% para 2026. Um spot de 15 segundos em horário nobre já ultrapassa facilmente os 150 mil euros, e nos picos de audiência o valor por 15 segundos pode superar os 300 mil euros. Mas o ponto de inflexão para as receitas está nos formatos integrados: uma telepromozione de 60 segundos inserida no coração do espetáculo pode exceder os 2 milhões de euros — um reflexo direto do valor agregado pela concentração de atenção naquele intervalo.
Além dos anúncios tradicionais, a receita publicitária de Sanremo foi reforçada por uma cauda digital robusta. O festival já não termina com a última nota musical: mantém-se vivo no streaming, nas redes sociais e em plataformas como YouTube e Vevo por semanas. Esse ecossistema pós-transmissão incorpora uma fatia estrutural da arrecadação e converte o evento em quase um produto permanente, com monetização diversificada e sustentável.
Somando a expansão de audiência e os ajustes nos preços, a projeção para a arrecadação publicitária de 2026 situa-se na faixa dos 75 milhões de euros. Trata-se de uma estimativa prudente, alinhada com a trajetória dos últimos anos, em que cada nova edição buscou superar o desempenho anterior. Importante destacar que esse fluxo de receitas é captado pela Rai sem representar um aumento direto no canone — portanto, o festival alavanca receitas comerciais sem onerar a contribuição pública básica dos lares.
No capítulo de custos, além dos investimentos de produção, figuram itens como os cachets de apresentadores — incluindo o pacote associado a figuras como Carlo Conti — e os reembolsos e compensações pagas aos grandes nomes do lineup. Esses custos são parte da equação de rentabilidade: ainda que altos, são diluídos perante o potencial de receita que o evento atrai.
Do ponto de vista estratégico, Sanremo funciona como um laboratório de alta performance para a Rai: testa formatos, domina audiências e transforma atenção em receita. É uma peça do design de políticas empresariais onde a calibragem fina dos preços publicitários e a gestão multicanal se equivalem ao ajuste de um motor de precisão — cada componente deve funcionar em sintonia para gerar aceleração sustentável.
Para anunciantes e investidores, o festival representa uma oportunidade de exposição massiva, ainda que a entrada seja cara. Para a Rai, representa um ativo estratégico que assegura liquidez e visibilidade sem recorrer a freios fiscais sobre o cidadão contribuinte. Em linguagem de mercado: Sanremo não é apenas um show, é um ativo que converte audiência em capital operando com alta alavancagem comercial.
Em síntese, a edição 2026 de Sanremo confirma-se como evento único no panorama mediático italiano: capaz de ampliar receitas — com uma expectativa de cerca de 75 milhões de euros em publicidade —, fortalecer a presença digital e mitigar o impacto sobre o canone. Para a Rai, é uma corrida de alta velocidade onde a estratégia, mais do que a sorte, determina a vitória.






















