O projeto de lei delega sobre o plano nuclear chegou às comissões de Ambiente e Atividade Produtiva da Câmara dos Deputados italiana, trazendo os primeiros detalhes concretos sobre o retorno do país às tecnologias nucleares. Entre as previsões financeiras aparece um envelope de 67,5 milhões de euros distribuídos em ações preparatórias para atrair investimentos no setor.
Segundo o artigo 4 do texto, as verbas serão alocadas no triênio 2027–2029. A parcela principal corresponde a 60 milhões, vertidos em parcelas anuais de 20 milhões de euros, provenientes do Fondo per il Finanziamento degli Investimenti e lo Sviluppo Infrastrutturale del Paese, sob a gestão do Ministério do Meio Ambiente e de seu titular, Gilberto Pichetto Fratin. Os restantes 7,5 milhões de euros se destinam a campanhas de informação à população: 1,5 milhão previstos para 2025 e mais 6 milhões para 2026, com cobertura financeira assegurada por um fundo especial de parte corrente inscrito no estado de previsão do Mase.
O texto legislativo apresenta também, pela primeira vez, uma rota técnica para o retorno ao nuclear. São delineados dois cenários até 2050: o mais conservador projeta uma capacidade instalada entre 7,5 GW e 8,5 GW — o equivalente a seis ou sete centrais de porte clássico —, enquanto o mais ambicioso contempla até 16 GW, o que representaria aproximadamente 22% da demanda elétrica prevista para a Itália nesse horizonte temporal (o cenário moderado corresponderia a cerca de 11%).
Importante calibragem de política pública: o governo não pretende retomar o modelo das grandes usinas nucleares do passado, anteriores ao referendo de 1987. A estratégia privilegia os Small Modular Reactors (SMR), reatores de menor porte que podem ser combinados modularmente para alimentar desde municípios até grandes indústrias intensivas em energia. Há menção, no desenho do plano, a uma janela temporal para a introdução em escala desses SMR a partir da metade da próxima década, com primeiras aplicações comerciais planejadas a partir de 2035.
Como economista e estrategista, vejo nesse movimento uma calibragem essencial: trata-se de ajustar o motor da economia energética do país para uma aceleração de longo prazo, reduzindo emissões sem perder competitividade. O investimento inicial — relativamente contido — atua como uma fase de testes e sinalização ao mercado, uma espécie de preparação do chassi institucional antes de uma possível aceleração dos fluxos privados e públicos.
Do ponto de vista prático, os próximos passos envolverão a definição de normas, regimes de autorização e esquemas de financiamento privativo, além de um trabalho de comunicação pública robusto para mitigar receios e explicar a governança de segurança. Essa combinação de design de políticas e comunicação funcionará como a eletrônica que garante estabilidade em alta rotação: sem ela, a potência prevista dificilmente se converterá em benefícios reais para o sistema elétrico e para a descarbonização.





















