O mercado global começou a semana com o radar calibrado para risco — e, quando a incerteza aumenta, o painel costuma acender primeiro no ouro. O metal precioso ultrapassou uma marca que, há apenas um ano, parecia distante: US$ 5 mil por onça, negociado em torno de US$ 5.072. No pregão de hoje, avançou cerca de 2%, acumulando aproximadamente +18% desde 1º de janeiro e um impressionante +83% em 12 meses.
Essa valorização não é um “capricho” de preço; é a soma de dois motores bem conhecidos. O primeiro é o aumento dos riscos geopolíticos, que empurra investidores (inclusive bancos centrais) para ativos de proteção. O segundo é mais técnico, mas igualmente decisivo: o movimento de queda dos juros nos Estados Unidos, que reduz a atratividade relativa dos títulos do Tesouro americano e torna o custo de oportunidade de carregar ouro menos pesado. Em outras palavras: com os rendimentos reais menos convidativos, o ouro ganha tração como reserva de valor.
Na mesma pista, a prata também acelera — mas com uma diferença relevante de “engenharia de demanda”. Além de funcionar como proteção em momentos de estresse, ela carrega um componente estrutural de consumo na indústria. O metal chegou a cerca de US$ 110 por onça, com alta de aproximadamente 7% no dia e um salto de +260% no último ano. É um movimento que combina aversão ao risco com procura industrial, uma mistura que pode amplificar volatilidade quando o mercado troca rapidamente de marcha.
A semana é particularmente rica em eventos e tende a exigir um volante firme dos investidores. Na quarta-feira à noite, o destaque é a decisão do Federal Reserve sobre os juros. A expectativa predominante é de manutenção das taxas, mas, como sempre, o que realmente define o “design” da próxima curva é a comunicação. As palavras do presidente do Fed, Jerome Powell, devem funcionar como ajuste fino — uma calibragem de expectativas para inflação, crescimento e, principalmente, para o timing de cortes ou pausas mais prolongadas.
No lado corporativo, entram em cena resultados de gigantes que influenciam diretamente o humor das bolsas globais: Microsoft, Meta, Tesla e Apple. Em semanas assim, o mercado não reage apenas a lucros: reage ao guidance, ao investimento em tecnologia, ao custo de capital e ao quanto cada empresa consegue sustentar margens com consumidores e empresas mais seletivos.
Na Europa, a Bolsa de Milão tenta reconstruir velocidade após a queda de -2,11% na semana passada, movimento que empurrou o desempenho do índice para o negativo no acumulado do ano. Hoje, a praça italiana opera em leve alta, por volta de +0,36%, com avanço mais visível do setor bancário e desempenho mais fraco em ações industriais. A leitura é clara: em um cenário de juros em transição e crescimento sob avaliação, o capital migra com rapidez entre setores — como quem redistribui peso em um carro de alta performance para manter estabilidade em curva.
Na Alemanha, o foco do pregão recaiu sobre o grupo aeroespacial Ohb, que disparou aproximadamente +30%. O gatilho veio de informações publicadas pelo Financial Times: Rheinmetall e Ohb estariam avaliando uma parceria para desenvolver uma rede de satélites militares alemã, com proposta comparada à Starlink de Elon Musk. Se confirmado, o projeto reforça a tendência europeia de ampliar autonomia estratégica em defesa, comunicações e infraestrutura crítica — um movimento que, na prática, pode redesenhar cadeias de investimento no setor aeroespacial.
No câmbio, o destaque é um fortalecimento expressivo do euro e um enfraquecimento do dólar. A moeda comum europeia é cotada perto de US$ 1,1843, acumulando cerca de +2,25% na última semana. O ajuste não é apenas numérico: ele reposiciona preços de importação, margens de exportadores e, sobretudo, os fluxos de capital em ativos denominados em dólar.
Também chama atenção a valorização do iene frente ao dólar, um movimento que costuma ter efeitos colaterais relevantes. Isso preocupa participantes globais que se financiam no Japão — historicamente um ambiente de juros baixos — para aplicar em outras geografias e classes de ativos, a conhecida estratégia de carry trade. Quando o iene se fortalece, o custo dessa estrutura aumenta e posições podem ser desmontadas de forma rápida. Em Tóquio, o índice caiu cerca de -1,83%, sinalizando justamente um ambiente de ajuste e redução de risco.
Em resumo: com ouro e prata em máximas, câmbio se reprecificando e a semana marcada por Fed e balanços de gigantes de tecnologia, o mercado entra em modo de alta sensibilidade. É um cenário que exige disciplina, leitura de ciclo e atenção aos detalhes — porque, em economia e finanças, o que parece apenas “ruído” muitas vezes é o primeiro aviso de que o sistema está mudando de rotação.






















