Por Stella Ferrari — Em um cenário internacional onde as medidas comerciais funcionam como sistemas de transmissão entre economias, a palavra controdazio reapareceu com força — não como moda linguística, mas como ferramenta política e econômica concreta. O termo, frequentemente usado no plural controdazi, descreve tarifas aplicadas em retaliação a medidas protecionistas de outro país.
Tecnicamente, um controdazio consiste na imposição de tarifas especulares sobre as exportações de um Estado, em resposta a barreiras comerciais consideradas hostis. Não se trata apenas de ajustar a tarifa como uma variável numérica: muitas vezes as medidas miram produtos de alto valor simbólico para amplificar a mensagem política, ampliando o impacto para além da conta comercial e atingindo a percepção pública sobre marcas nacionais.
Um exemplo paradigmático ocorreu em 2018, quando a União Europeia reagiu aos dazi norte-americanos sobre aço e alumínio — de 25% e 10%, respectivamente — com contramedidas direcionadas a produtos emblemáticos do made in USA. Entre eles estavam o bourbon de Kentucky, as motocicletas Harley-Davidson e os jeans Levi’s, gravados com tarifas que variaram entre 25% e 50%, num conjunto estimado em cerca de 2,8 bilhões de euros. Esse foi um movimento estratégico: além de afetar fluxos econômicos, buscou mandar um recado político claro ao eleitorado e aos produtores.
O uso do termo, no entanto, não é totalmente novo. A linguista Valeria Della Valle, co-diretora dos dicionários Treccani, recorda que Luigi Einaudi já o empregou em 1955, em seu texto Il buon governo. Segundo Della Valle, reproduzida em matéria da AdnKronos, o vocábulo ficou por longos períodos como tecnicismo guardado em ensaios e dicionários, até emergir em momentos de tensão comercial.
Entre 2024 e 2025 houve um verdadeiro salto no uso do termo: jornalistas e analistas passaram a adotá-lo para nomear com precisão as medidas retaliatórias que florescem numa era marcada por políticas tarifárias renovadas — do ciclo iniciado por Trump à fase posterior e às reiterações mais recentes atribuídas ao que muitos chamam de “Trump II”. Della Valle observa que, enquanto o tabuleiro internacional continuar dominado por disputas tarifárias e manobras contrárias, a palavra controdazio manterá circulação e possibilidade de consolidação no léxico público.
Do ponto de vista estratégico, entender o controdazio é compreender a calibragem das respostas comerciais: é a forma como um país ajusta o torque da sua política externa econômica para neutralizar choques e sinalizar custos políticos aos rivais. Em termos práticos, essas medidas podem funcionar como freios temporários — ou como aceleradores de proteção de indústrias locais — dependendo da intensidade e do foco das tarifas impostas.
Não podemos esquecer que a eficácia dos controdazi depende do contexto geopolítico, das cadeias de valor globais e do poder simbólico dos bens atingidos. Assim como em engenharia, onde uma pequena mudança na calibragem altera o comportamento de todo o sistema, nas relações comerciais a escolha dos alvos condiciona tanto o impacto econômico quanto a repercussão política.
Enquanto a cena internacional continua sujeita a choques políticos e mudanças de estratégia, acompanhar o uso e a aplicação do controdazio será vital para gestores, investidores e formuladores de política que precisam prever riscos e redesenhar estratégias de mercado.
Stella Ferrari — Economista sênior, especializada em macroeconomia internacional e estratégias de desenvolvimento.






















