A Nestlé anunciou que está pronta para executar a venda da sua divisão Waters, um desinvestimento que envolve marcas icônicas como San Pellegrino, Acqua Panna, Levissima e Perrier. A operação está avaliada em mais de €5 bilhões e representa uma manobra estratégica de grande relevância, especialmente para a indústria italiana, onde Sanpellegrino é um dos ativos industriais de maior peso.
O desmembramento da divisão é parte do programa estratégico Fuel for Growth, lançado pela companhia com metas claras de eficiência: redução da complexidade, ganhos operacionais e uma meta de economias de cerca de 3 bilhões de francos suíços até 2027, incluindo um plano de readequação de pessoal na ordem de 16 mil postos. Essa calibragem de portfólio é, em linguagem de engenharia, uma redefinição do chassi corporativo para melhorar a relação peso-potência da empresa.
Em 2025, a divisão Nestlé Waters acelerou o processo de separação. Nos primeiros nove meses do ano, a unidade reportou receitas próximas de €3 bilhões, praticamente estáveis frente ao ano anterior, com performance heterogênea por marca: San Pellegrino e Acqua Panna registraram crescimento sólido e ganho de participação de mercado; já Perrier sofreu com problemas produtivos e uma crise reputacional relacionada ao uso de tratamentos de filtragem proibidos, que gerou contenciosos na França. Esse episódio legal foi solucionado recentemente, permitindo que Perrier continue a ser comercializada como “água mineral natural”.
O quadro corporativo da Nestlé também passou por tensões de governança, ampliadas por escândalos vinculados às práticas no setor de águas e pela crise envolvendo leites infantis. Em setembro de 2025, como parte da transição, foi nomeado o novo CEO da divisão, Philipp Navratil, encarregado de conduzir a preparação para a venda e estabilizar a operação durante a transição.
Segundo apurações de mercado e veículos especializados, a multinacional contratou o banco Rothschild & Co. para gerir o processo de leilão. As instituições financeiras estão estruturando um pacote de dívida estimado entre €2 e €3 bilhões, na forma de leveraged loan em euros e dólares, correspondente a aproximadamente quatro a seis vezes o EBITDA da divisão, que está em torno de €500 milhões.
Entre os interessados na aquisição figuram grandes fundos de private equity internacionais. No front, o francês PAI Partners aparece em posição de destaque como favorito na corrida por ativos que incluem San Pellegrino, Acqua Panna e Perrier, embora outras casas de investimentos também tenham manifestado propostas iniciais ou estejam em diligência. A expectativa é que ofertas preliminares sejam apresentadas nos primeiros meses de 2026.
Do ponto de vista estratégico e macroeconômico, essa operação tem múltiplas implicações. Para a Itália, trata-se de uma possível mudança de guardião para uma joia industrial, com efeitos sobre empregos, cadeias logísticas e posicionamento de marcas de luxo no mercado global. Para o setor financeiro, a operação demonstra a atual dinâmica do private equity em buscar ativos de consumo resilientes, financiados por alavancagem calculada — uma espécie de “calibragem de juros” sobre o balanço.
Como economista que acompanha o setor premium de bens de consumo, interpreto a transação como uma reconfiguração do motor da economia de marcas: investidores com apetite por crescimento e capacidades operacionais podem acelerar a expansão internacional das marcas, mas terão de administrar riscos reputacionais e operacionais herdados. A venda também é um reflexo da necessidade de empresas globais de reduzir complexidade e liberar capital para investimentos de maior retorno.
Nos próximos meses, acompanharemos a fase final do processo de venda, a estruturação do financiamento e a escolha do comprador — movimentos que definirão a próxima marcha no desenvolvimento dessas marcas clássicas e o ritmo de sua internacionalização.


















