A Moeda de Orwell: Como Defender-se do Totalitarismo Digital
Entrevista com Armando Savini — versão e análise por Stella Ferrari
16 de fevereiro de 2026
Introdução
Em tempos em que dívida pública, bancos centrais e moedas digitais ocupam o centro do debate, entender quem detém o controle da moeda é condição essencial para preservar liberdades. Nesta conversa, o economista Armando Savini traça a evolução do poder monetário e aponta riscos e defesas contra um possível totalitarismo digital. Eu, Stella Ferrari, sintetizo e contextualizo suas observações com um olhar estratégico de mercado.
Pergunta: Como se desenvolveu historicamente o poder dos bancos centrais e qual é hoje seu papel?
Savini recorda que o mito do dívida pública como “macigno” tem sido explorado politicamente. Os títulos públicos são, em essência, uma forma de moeda que paga juros e funcionam como passivo estatal. O sistema bancário os trata como moeda; quando se amplia esse uso para famílias e empresas, a configuração monetária muda. O chamado Genius Act de 2025, por exemplo, autorizou a emissão de stablecoins lastreadas em títulos do Tesouro americano, um movimento que reconfigura quem exerce efetivamente a política monetária.
Quem governa a moeda hoje?
Na visão de Savini, no mundo anglo-saxão a disputa entre Executivo e Federal Reserve se intensifica: administrações podem tentar reapropriar instrumentos monetários via inovações financeiras, contornando bancos centrais tradicionais. Na Europa, a BCE assumiu funções que antes pertenciam aos Estados-membros, criando uma delegação da função monetária para um organismo supranacional sujeito aos parâmetros de Maastricht. O caso italiano do “divórcio” entre o Tesouro e o Banco d’Italia — formalizado por correspondência entre Andreatta e Ciampi — marcou o fim da prática em que a banca central servia abertamente ao Tesouro.
Existe, realmente, uma “banca central independente”?
Savini é categórico: a independência absoluta é uma ilusão. Se uma instituição não responde ao Governo, tenderá a responder a outros vetores de poder, como os mercados financeiros ou influências externas. A calibragem de juros ou as compras massivas de títulos são decisões com impacto político e econômico profundo — são o “motor da economia” quando bem reguladas e os “freios fiscais” quando mal aplicadas.
Por que a moeda digital pode ameaçar liberdades?
As CBDCs e plataformas programáveis introduzem possibilidades técnicas de condicionar uso, limitar transações e vigiar movimentos de capital em tempo real. Essa capacidade, nas mãos de atores autoritários ou mesmo de sistemas mal desenhados, pode transformar a moeda em instrumento de controle social — o que Savini chama de totalitarismo digital. A tecnologia permite uma governança monetária com regras embutidas; a pergunta crucial é: quem define essas regras?
Como nos defendemos?
As recomendações de Savini, complementadas pela minha leitura de estrategista, são práticas e políticas:
- Preservar e proteger o cash como reserva de liberdade e anonimato transacional;
- Exigir salvaguardas legais para qualquer CBDC: limites à programabilidade, garantias de privacidade e controles parlamentares;
- Incentivar diversidade monetária: moedas privadas reguladas (stablecoins), estruturas descentralizadas e concorrência para evitar monopólios tecnológicos;
- Fortalecer transparência e auditoria pública sobre compras de ativos pelos bancos centrais e operações fora do balanço;
- Elevar a literacia digital e financeira dos cidadãos para que compreendam riscos e opões.
Estratégia de longo prazo
Recomenda-se uma agenda que combine design de políticas — reconectar a autoridade monetária à democracia — e inovação responsável: projetar moedas digitais com privacidade por padrão e arquitetura multi-guardas que impeçam usos arbitrários. A governança da moeda é, em última instância, governança do poder. Recuperar esse controle é recuperar a soberania democrática.
Conclusão
Como estrategista, enxergo o tema como uma peça de alta engenharia institucional. A transição tecnológica oferece aceleração de tendências, mas também exige freios e calibrações. Defender-se do risco orwelliano não é rejeitar a inovação: é projetá-la para servir à liberdade, não ao controle. Em termos práticos, a combinação de proteção ao dinheiro físico, regras constitucionais para moedas digitais e pluralidade institucional é a melhor defesa para manter o motor da economia em marcha com segurança e elegância.
Stella Ferrari
Economista sênior — Espresso Italia




















