Por Stella Ferrari — As praças europeias abriram a sessão com um comportamento contrastado depois da divulgação dos números de inflação na área do euro: em dezembro a inflação caiu para 2% ante 2,1% em novembro, movimento sobretudo explicado pela retração dos preços da energia. A leitura renovou a percepção de um motor da economia com menos pressão inflacionária, trazendo implicações imediatas para ativos sensíveis à política monetária.
No balanço das principais bolsas, Milão e Londres operaram em terreno negativo, enquanto Paris e Frankfurt flertaram com a estabilidade, operando ligeiramente acima da paridade. A sessão evidenciou diferenciações setoriais claras, com empresas ligadas a utilidades e telecomunicações em destaque.
Em Piazza Affari, o título Italgas saltou mais de seis pontos percentuais após a colocação, por parte da Snam, de um green bond conversível em ações da Italgas no montante de 500 milhões de euros. A operação é interpretada pelo mercado como uma manobra de refinanciamento e desalavancagem que melhora a visibilidade financeira do grupo e cria esperanças de maior liquidez para o papel — um efeito semelhante à calibragem fina numa transmissão de potência: menor atrito, resposta mais rápida do ativo.
Outro papel que acelerou foi a Telecom Italia, beneficiada pelo anúncio de um acordo com Vodafone e Fastweb para o desenvolvimento conjunto de redes 5G. Para investidores, a parceria sinaliza redução de capex duplicado e maior eficiência na expansão da infraestrutura, elementos que reverberam positivamente em valor de mercado.
Do lado oposto, as ações do setor energético sofreram com a queda dos preços do petróleo. A Eni cedeu cerca de três pontos percentuais, pressionada por expectativas de oferta mais folgada. O catalisador mais imediato foi a declaração do presidente Trump sobre a próxima entrega de 50 milhões de barris de petróleo pelo Venezuela aos Estados Unidos — uma notícia que provocou um recuo acentuado nos contratos do Brent e do WTI ao alimentarem receios de ampliação da oferta global.
Do ponto de vista macro, a combinação de inflação mais baixa e correção dos preços das commodities energeticamente sensíveis cria um ambiente de menor urgência para novos apertos monetários por parte do Banco Central Europeu. Ainda assim, persiste a necessidade de monitorar a dinâmica de serviços e salários: a velocidade da desaceleração inflacionária pode determinar a capacidade dos bancos centrais de manter os “freios fiscais” e ajustar a “calibragem de juros” sem comprometer o crescimento.
Em resumo, a sessão ilustra como choques isolados — um grande movimento de oferta de petróleo ou uma emissão estratégica de green bonds — podem reorientar a rotação setorial dos mercados. Para gestores e investidores de perfil sofisticado, fica o imperativo de reavaliar exposição a energia versus infraestrutura regulada, e de olhar para as telecomunicações com foco na eficiência operacional e nas sinergias de rede.































