Por Stella Ferrari — A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, recebeu em 2025 um pagamento suplementar de 140 mil euros pela sua participação na Banca dei Regolamenti Internazionali (BRI), conhecida internacionalmente como Bank for International Settlements, com sede em Basel. A revelação reacendeu críticas internas em Frankfurt e suscitou debate público sobre regras de conduta e possíveis duplo padrão no tratamento de altos cargos na zona do euro.
O pagamento foi anunciado pela própria Lagarde durante resposta a perguntas de eurodeputados alemães e suecos. Funcionários da BCE manifestaram desconforto, lembrando que existe um veto formal para que o pessoal da instituição receba remunerações de terceiros. No entanto, a direção da BCE justificou que esse veto «não se aplica» à presidente. Fontes em Frankfurt explicam que a presidente não integra a categoria do “personale ordinario” e está sujeita a um código de conduta específico para membros de alto nível — prática alinhada com precedentes de ex-presidentes como Mario Draghi e Jean-Claude Trichet.
Do ponto de vista institucional, integrar o conselho da BRI implica responsabilidades de governança e exposição a riscos legais que, segundo a BCE, justificam remuneração diferenciada. A BRI, criada em 1930 e muitas vezes chamada de “banco central dos bancos centrais”, remunera membros do board por essas funções extras.
O subsídio soma-se ao vencimento que Lagarde já recebe como presidente da BCE. Em 2024, a sua remuneração base foi de aproximadamente 466 mil euros, com benefícios estimados em cerca de 135 mil euros, totalizando uma remuneração anual próxima de 741 mil euros, o que a coloca como a funcionária da União Europeia com maior ordenado.
Paralelamente às questões salariais, circulam especulações de que Lagarde estaria a preparar uma saída antecipada antes do fim do seu mandato, previsto para 2027. Fontes citadas por imprensa sugerem que essa eventualidade poderia permitir que líderes políticos como Emmanuel Macron e Friedrich Merz influenciem a escolha do sucessor antes de eleições importantes. Entre os nomes apontados como potenciais candidatos para suceder Lagarde estão Isabel Schnabel, Joachim Nagel, Klaas Knot, Pablo Hernández de Cos e o italiano Fabio Panetta.
Em Frankfurt, as instâncias oficiais negam que haja decisões imediatas sobre a substituição e sublinham que procedimentos e calendários institucionais estão em vigor. Ainda assim, o episódio do pagamento da BRI funciona como um foco de tensão: para a equipa técnica da BCE, a situação assemelha-se a um problema de «calibragem» — onde a precisão do sistema institucional é posta à prova por exceções percebidas. Como estrategista, vejo este episódio como uma questão de design de políticas e confiança: a credibilidade de uma autoridade monetária depende tanto da solidez das suas decisões de juros quanto da transparência dos seus próprios «motores» internos.
O debate não é apenas contábil; tem implicações políticas e reputacionais. Se o objetivo é manter o “motor da economia” robusto e confiável, a BCE terá de gerir não só a calibragem dos instrumentos de política monetária, mas também a coerência das regras que regem quem as aplica.






















