Por Stella Ferrari — O recente controle judicial ordenado pelo procurador de Milão, Paolo Storari, sobre a Foodinho — empresa de delivery ligada ao grupo espanhol — reacende o foco sobre a condição dos riders na economia das plataformas. A operação, no âmbito de uma investigação por caporalato, é mais um episódio que confirma a fotografia apontada no dossiê do Nidil Cgil: trabalho precário, compensos em queda e regras opacas.
O estudo mencionado, resultado de uma investigação iniciada em junho de 2024, aplicou um questionário de 41 perguntas em quatro idiomas (italiano, inglês, francês e urdu) a cerca de 500 trabalhadores. O retrato é consistente: pagamentos que oscilam entre 2 e 4 euros brutos por entrega, jornadas diárias que podem chegar a 10 horas e uma organização de turnos que obriga muitos a trabalhar seis ou sete dias por semana, enfrentando trânsito, chuva e calor extremo.
Na prática, a pressão sobre o motor da economia on-demand tem se traduzido numa clara perda de valor real do trabalho. Giovanni, 43 anos, graduado em Ciências Políticas e rider desde 2020, descreve a mudança: “Houve meses em que chegava a ganhar 3.500 euros, trabalhando mais de oito horas por dia, inclusive para múltiplas plataformas. No ano passado ganhei cerca de 24.000 euros. Como pessoa jurídica no regime forfetário pago 5% de imposto substitutivo; após cinco anos passa para 15%. Entre impostos e contribuições, paguei aproximadamente 7.000 euros. Não é simples poupar.”
Imran, 23 anos e no delivery desde 2021, relata uma rotina fragmentada por esperas em restaurantes e percursos por toda a cidade, com “pagamentos também de 3 euros e critérios definidos por um algoritmo opaco”.
No recorte amostral, mais da metade dos entrevistados trabalha para várias plataformas (55%). Entre os autônomos, prevalecem nomes como Glovo (67,4%) e Deliveroo (70,7%), enquanto uma parcela utiliza ainda Just Eat (13,9%). O grupo holandês que adota contratos de trabalho subordinado aparece como exceção: nesses casos, a atividade em Glovo/Deliveroo costuma ser um segundo ou terceiro emprego.
Para 76,4% dos entrevistados o delivery é a principal fonte de renda. Consequentemente, 72,9% trabalham 6-7 dias por semana e 49,3% passam entre 7 e 10 horas por dia em atividade, com mais de oito entregas diárias em 61,7% dos casos. As esperas no recolhimento dos pedidos reduzem ainda mais o valor efetivo do ganho: em 50,5% dos casos, a média de espera é de 10-20 minutos.
O modelo de remuneração não contempla adicionais por tempo de deslocamento, esperas ou custos operacionais — despesas que, como freios fiscais mal calibrados, recaem integralmente sobre o trabalhador. Para 56,3% da amostra, o rendimento por entrega situa-se frequentemente entre 2 e 4 euros brutos. Sem proteção social adequada e com regras estabelecidas por algoritmos, o setor demanda uma intervenção de políticas públicas e empresariais orientada à reengenharia de remuneração e proteção.
Como estrategista econômica, vejo nesse quadro uma necessidade urgente de recalibragem: preservar a competitividade do mercado mantendo margem de lucro razoável para as plataformas, ao mesmo tempo em que se redesenha o contrato social desses trabalhadores. Trata-se de ajustar o design de políticas e o sistema de incentivos, como se afinássemos a suspensão de um veículo de alta performance — sem esse equilíbrio, a máquina perde eficiência e corre o risco de avarias sociais e legais.






















