Por Stella Ferrari — A transição demográfica em curso representa uma calibragem delicada para o motor da economia italiana. Em audiência recente na Comissão parlamentar di inchiesta, a presidente do Ufficio parlamentare di bilancio, Lilia Cavallari, expôs com clareza os vetores pelos quais o envelhecimento e a diminuição da população impactam o crescimento, a produtividade e as finanças públicas.
Os números são diretos e exigem uma resposta estratégica. No pós‑guerra, a parcela da população jovem (0–30 anos) era superior a 50%; hoje esse grupo representa cerca de 28% e, em uma década, deve recuar para aproximadamente 24%. Em contrapartida, a fatia de cidadãos com mais de 65 anos saltou de menos de 10% nos anos 1950 para cerca de 35% atualmente. Esses deslocamentos demográficos já se traduzem em menos crianças nas escolas e em padrões de gasto público que se alteram: a despesa com educação tende a diminuir enquanto a pressão sobre pensões e saúde cresce.
Cavallari enfatiza que será preciso atualizar o sistema de welfare para garantir benefícios adequados a uma população mais envelhecida: agir na qualidade das pensões, na eficiência da saúde e na organização da assistência de longa duração. Paralelamente, destaca a necessidade de reforçar a capacidade de atração de trabalhadores — tanto em termos de políticas de migração qualificadas quanto de formação contínua —, pois são essas as únicas “armas” capazes de atenuar o efeito mecânico da redução da força de trabalho.
Sobre as políticas de natalidade, a avaliação é pragmática: são importantes, e experiências como as de França e Alemanha indicam resultados positivos no longo prazo, mas demandam décadas para se traduzirem em efeitos substanciais sobre o mercado de trabalho. No curto prazo, portanto, as lacunas de oferta laboral não se resolverão apenas com incentivos à natalidade.
O impacto econômico tem duas dimensões. Na direta, o envelhecimento pressiona as despesas públicas, sobretudo com pensão e saúde. Na indireta, reduz a capacidade de crescimento potencial e, assim, afeta também a sustentabilidade fiscal. Cavallari prevê que a despesa com pensões continuará a subir pelo menos até 2040, quando deverá superar os 17% do PIB antes de iniciar um declínio. Isso exige uma visão estratégica que combine reformas estruturais, políticas de emprego ativas e investimentos em capital humano.
Do ponto de vista de política econômica, trata‑se de ajustar os freios e as engrenagens: calibrar políticas fiscais e do trabalho para preservar a produtividade e, ao mesmo tempo, desenhar incentivos que tornem a Itália mais competitiva na atração de talentos. Medidas que melhorem a qualidade dos serviços de saúde e assistência prolongada também aumentam a eficiência do gasto social — menos desperdício, mais resultado. Em suma, enfrentar o inverno demográfico requer ações simultâneas sobre oferta de trabalho, qualidade do welfare e políticas de atração e formação.
Como estrategista, vejo essa transição como um desafio de engenharia econômica: é preciso redesenhar o chassi das políticas públicas e ajustar a calibragem das instituições para manter a aceleração das tendências positivas, minimizar a perda de produtividade e proteger a sustentabilidade fiscal. Sem essa intervenção coordenada, o risco é reduzir o potencial de crescimento e sobrecarregar o balanço público — consequências que podem comprometer o desempenho de longo prazo do país.





















