Roma, 22 de janeiro de 2026 — O gasto com saúde privada dos italianos atingiu €43,3 bilhões, chegando a representar quase um quarto do total da despesa em saúde no país. O dado consta do 21º Relatório sobre a Saúde elaborado pelo Crea e apresentado na sede do CNEL, assinado por Daniela d’Angela, diretora da área de avaliação de tecnologias e performance em saúde e presidente do conselho do Crea Sanità.
Trata-se de uma tendência que, na minha leitura técnica, reflete uma perda de potência do Sistema Sanitario Nazionale (Ssn) — o motor público do acesso à saúde — à medida que as famílias absorvem a carga crescente de serviços fora do sistema público. Em pouco tempo, a participação do setor público na cobertura das despesas caiu do 81% para 72,6%, um patamar inferior à média dos países europeus. O relatório evidencia ainda que o gasto público em saúde na Itália é cerca de 45% inferior ao europeu, sinalizando uma calibragem fiscal que não acompanha a necessidade demográfica e estrutural do país.
O impacto no orçamento doméstico é claro e mensurável: a proporção de famílias que arcam com despesas privadas de saúde saltou dos 50,8% nos anos 1980 para 70% atualmente. A incidência média destas despesas sobre o orçamento familiar mais que dobrou, chegando a 4,3%. Para núcleos com menor nível educacional, essa pressão sobe para 6,8%. Entre os 60% mais pobres, a parcela de gasto privado aumentou de 27,6% para 37,6%, uma aceleração que compromete outras prioridades de consumo e investimento das famílias.
Geograficamente, o fenômeno assume contornos distintos: no Norte da Itália, o crescimento do gasto privado acompanha a evolução da renda disponível; já no Centro e, sobretudo, no Mezzogiorno (Sul), o aumento é muito mais pronunciado, revelando desigualdades regionais profundas. Em termos práticos, muitas famílias no Sul encaram despesas sanitárias extra-Ssn como necessárias e inadiáveis, o que funciona como um freio ao consumo e à poupança.
O Crea alerta que, sem uma mudança de paradigma — com reforço da cobertura pública e políticas direcionadas para reduzir as assimetrias territoriais e sociais — o Ssn dificilmente responderá às necessidades em evolução da população. A demografia, as mudanças nas estruturas familiares e a maior expectativa por serviços de qualidade exigem uma estratégia de longo prazo: não basta ajustar falhas pontuais; é preciso redesenhar incentivos, investir em infraestrutura e repensar a alocação de recursos, numa verdadeira calibragem das políticas públicas.
Como estrategista, vejo esse quadro como uma questão de design de políticas: se o Ssn perde capacidade de oferecer acesso universal, a economia sente no seu eixo — reduzindo a qualidade de vida de famílias e elevando o risco sistêmico para investimentos sociais. A trajetória atual sugere que, sem intervenções claras, a dependência da saúde privada continuará a crescer, com impacto negativo sobre a equidade e a sustentabilidade do sistema.
Daniela d’Angela e o Crea concluem que é urgente priorizar reformas estruturais para restaurar a centralidade do Ssn e mitigar o peso das despesas privadas sobre as famílias mais vulneráveis.






















