Por Stella Ferrari — Em uma movimentação que redefine a governança acionária da casa de Maranello, foi firmado um novo pacto parasocial entre Exor, Piero Ferrari e o Trust da família Ferrari. O acordo, com duração de 3 anos, consolida uma cobertura conjunta de cerca de 32% do capital e aproximadamente 48% dos direitos de voto da companhia.
Do ponto de vista acionário, a estrutura se apresenta assim: a Exor detém atualmente cerca de 21,2% do capital — participação reduzida após o colocamento de 4% no mercado em 2025 — enquanto a família Ferrari controla, no total, 10,6%. Deste total, 10,2% encontram-se em nuda propriedade no Trust, com Piero Ferrari mantendo o usufruto e os direitos de voto. É essa composição que eleva para 32% a parcela sujeita ao pacto.
O novo instrumento substitui o entendimento de 2015, concebido no momento da listagem em bolsa e de natureza quinquenal. A escolha por um prazo mais curto — três anos — demonstra uma calibragem diferente na gestão do capital lock-up, alinhada a um contexto de mercado em que a capitalização da Ferrari chegou a cerca de €75 bilhões no início de 2025.
O aspecto mais significativo do acordo é a assimetria nas regras de saída. Piero Ferrari dispõe do direito de solicitar o desfazimento do pacto a qualquer momento, mediante pré-aviso de 30 dias, sem necessidade de justificar a decisão. Já a Exor tem uma via de saída antecipada muito mais restrita: só pode rescindir caso a participação combinada de Piero e do Trust caia abaixo de 5% do capital.
Na prática, o pacto permite à família Ferrari reduzir sua participação até o patamar de 5% sem que isso acione a ruptura do acordo. Apenas uma queda abaixo deste limite facultaria à Exor o direito de saída antecipada — uma inversão clara em relação ao regime anterior, que havia adotado um tratamento mais simétrico entre os principais acionistas.
Outra cláusula relevante refere-se à transferência dos direitos de voto relativos aos 10,2% detidos em nuda propriedade pelo Trust. Caso esses direitos de voto sejam transferidos ou consolidados de modo que juntem-se à participação de Exor e ultrapassem a barreira de 30%, o pacto prevê o seu encerramento imediato. A motivação é legal e técnica: a combinação poderia acarretar o obrigação de OPA (oferta pública de aquisição) segundo a regulamentação neerlandesa, uma consequência que os signatários querem evitar.
Do ponto de vista estratégico, o novo acordo atua como uma caixa de câmbio bem calibrada para o motor da economia da Ferrari: permite movimento e liquidez parcial, mantendo, porém, mecanismos de proteção contra mudanças bruscas de controle que possam desestabilizar a companhia. É uma combinação entre estabilidade acionária e flexibilidade para os detentores originais — uma solução que reflete a natureza híbrida do grupo, tanto um ícone de luxo quanto um ativo financeiro de grande porte.
Em suma, o pacto trienal reequilibra poderes entre os protagonistas e introduz regras que privilegiam a mobilidade do grupo Ferrari sem comprometer claramente a posição estratégica de Exor. Para o mercado, a leitura é de uma governança que busca proteger valor e mitigar gatilhos regulatórios, com atenção especial à legislação neerlandesa sobre obrigações de oferta.





















