Washington e Taiwan fecharam um acordo comercial que reduz as tarifas sobre semicondutores para 15% em troca do compromisso de empresas taiwanesas investirem até US$ 250 bilhões nos Estados Unidos. O pacto — parte da estratégia americana para fortalecer a cadeia de suprimentos de tecnologia avançada — já provoca reações duras de Pequim, que interpreta o movimento como um reconhecimento implícito da soberania da ilha.
Na prática, o acordo segue o roteiro adotado por Washington em outras negociações recentes na região: após uma elevação temporária das tarifas, os Estados Unidos negociam reduções tarifárias vinculadas a planos de investimento anunciados por grandes fornecedores asiáticos. No caso de Taiwan, as tarifas chegaram a 36% e foram reduzidas para 20% após o anúncio da TSMC sobre um aporte de US$ 100 bilhões nos EUA — parte desse valor já fazia parte de planos prévios da própria empresa. O novo entendimento baixa ainda mais as tarifas para 15%, condicionado à concretização de investimentos que, no total, atingiriam US$ 250 bilhões, incluindo os US$ 100 bilhões já anunciados.
Do ponto de vista econômico, trata-se de uma manobra de calibragem fina: os EUA buscam reduzir os “freios” que limitam a transferência de tecnologia e produção, ao mesmo tempo em que tentam atrair a “potência de fogo” financeira das grandes fabricantes de chips para o solo americano. Em linguagem automotiva, é como ajustar o motor da indústria para aumentar a resiliência da cadeia global sem perder a tração política.
A resposta de Pequim foi imediata e severa. Autoridades chinesas afirmaram que não aceitarão que países que mantêm relações diplomáticas com a China negociem acordos com a “região chinesa de Taiwan” que possam ter implicações soberanas. Como sinal de pressão, a China já vinha restringindo importações de chips avançados de empresas como a Nvidia, condicionando liberações a autorizações especiais emitidas pelo governo central.
Do ponto de vista do mercado, o impacto será observado em duas frentes: primeiro, na dinâmica de investimentos dos fabricantes taiwaneses — que, no discurso, prometem reforçar instalações e P&D nos EUA; segundo, na diplomacia econômica entre Washington e Pequim. A promessa de US$ 250 bilhões pode acelerar projetos anunciados, mas também corre o risco de ser, em parte, uma formalização de planos já existentes, prática já verificada em acordos anteriores.
Como economista com visão de alta performance, eu vejo nesse movimento a tentativa dos EUA de redesenhar o mapa da produção tecnológica global sem recorrer a rupturas bruscas: é uma recalibração de políticas e incentivos, que busca converter dependências estratégicas em ativos domésticos. A eficácia dessa estratégia dependerá da concretização dos investimentos e da capacidade de mitigar retaliações comerciais e tecnológicas de Pequim.





















