Por Stella Ferrari — Em uma decisão que redesenha a geometria do comércio exterior norte-americano, a Corte Suprema dos Estados Unidos anulou a maior parte dos dazi (taxas aduaneiras) impostas pelo governo de Trump com base na lei de 1977 conhecida como IEEPA (International Emergency Economic Powers Act). Os magistrados entenderam que o presidente não dispunha de autoridade suficiente para adotar medidas de tão elevada repercussão econômica, invocando a chamada dottrina das questões importantes.
A decisão atinge cerca de dois terços das tarifas decretadas pela Casa Branca nos últimos 13 meses; permanecem vigentes outros atos associados a fundamentos jurídicos distintos. Em termos práticos, a Corte exigiu uma clara e explícita autorização do Congresso para medidas executivas que tenham “grande relevância econômica e política”, nivelando, assim, o poder executivo à necessidade de uma calibragem legislativa mais rigorosa.
O presidente do tribunal, John Roberts, citou precedente da Corte ao afirmar que o chefe do Executivo deve indicar uma autorização clara do Congresso para suportar uma afirmação extraordinária de poder em matéria de comércio — naquela formulação, a Corte concluiu: “Não pode fazê-lo”.
Durante um café da manhã na Casa Branca com governadores, Trump qualificou a sentença como “uma vergonha”, segundo duas fontes citadas pela CNN, e disse ter um plano de contingência em mente. A fala do presidente ressalta que as medidas tarifárias foram centrais em sua estratégia de política econômica e externa, servindo como alavanca em uma guerra comercial que amplificou incertezas nos mercados e tensionou cadeias de fornecimento globais.
Reações internacionais foram imediatas. Olof Gill, porta-voz da Comissão Europeia, afirmou que a decisão está sendo analisada com atenção e que a UE aguarda esclarecimentos da administração americana sobre as medidas que serão tomadas em resposta. “Empresas de ambos os lados do Atlântico dependem da estabilidade e previsibilidade das relações comerciais”, disse Gill, reafirmando o compromisso europeu em reduzir barreiras tarifárias.
O governo britânico ressaltou que o Reino Unido mantém uma das posições tarifárias recíprocas mais baixas globalmente e que espera preservar sua relação comercial privilegiada com os EUA, trabalhando com Washington para avaliar os impactos da sentença. No Canadá, o ministro Dominic LeBlanc declarou que a decisão reforça a posição de Ottawa de que muitas das tarifas eram injustificadas.
Para o mundo dos negócios, a decisão da Corte Suprema representa uma desaceleração — por vezes uma freada — nas políticas executivas que funcionavam como instrumentos rápidos de proteção. Para formuladores e investidores, é um lembrete de que, no design de políticas públicas, o motor da economia exige ruído mínimo e previsibilidade. A vitória judicial decorre de contestações apresentadas por empresas afetadas e por 12 estados americanos, que questionaram a legalidade das imposições tarifárias perante os tribunais.
Do ponto de vista estratégico, o veredito realinha forças: enquanto o Executivo buscava acelerar tendências por decreto, o Judiciário reafirma a necessidade de coautoria legislativa para mudanças estruturais em comércio exterior. O resultado deve desencadear negociações políticas e possíveis iniciativas legislativas — ou novas táticas executivas — num cenário que continua volátil para mercados e cadeias globais.
Em síntese, a decisão da Corte estabelece limites claros ao uso executivo de ferramentas tarifárias e redesenha o campo de jogo para políticas comerciais americanas, com efeitos diretos sobre parceiros transatlânticos e o equilíbrio entre poder presidencial e controle do Congresso.






















