Stella Ferrari — As empresas italianas planejam preencher 527.000 vagas em janeiro de 2026, um número que representa uma leve retração de 0,6% em relação a janeiro de 2025. O cenário, extraído do Bollettino del Sistema informativo Excelsior — elaborado por Unioncamere em parceria com o Ministério do Trabalho e das Políticas Sociali e cofinanciado pela União Europeia — revela uma composição setorial desigual: há aceleração da demanda no setor primário e persistentes dificuldades na manufatura.
O balanço aponta que, apesar da variação geral marginalmente negativa, os movimentos entre os setores são distintos. O setor primário é o que mais cresce, com aumento anual de 6,5% nas intenções de contratação — um sinal de realinhamento estrutural que, na minha leitura, indica tanto necessidade de mão de obra quanto uma recalibração das cadeias de valor agrícolas e agroindustriais. Em contraponto, o secondario — particularmente a manufatura — continua em contração, com redução sensível nas vagas.
Na média, as vagas projetadas recuaram 3,5%, resultado que combina um declínio de 4,6% na indústria manufatureira e 1,3% no setor da construção. O terciário, por sua vez, manteve-se essencialmente estável.
Quanto ao tipo de vínculo ofertado, a predominância é de contratos a termo, com cerca de 252.000 postos; os contratos indeterminados somam aproximadamente 111.000, e as somministrazioni (trabalho por intermédio de agências) respondem por cerca de 63.000 vagas. Essa distribuição evidencia uma preferência empresarial por flexibilidade contratual, num contexto macro em que a calibragem de políticas e a previsibilidade são ainda insuficientes.
Um dado relevante é a redução de 3,3% na dificuldade de recrutamento: o indicador ficou em 45,8%. Apesar da melhora relativa, a taxa permanece elevada por conta de dois fatores principais apontados pelas empresas: a oferta insuficiente de candidatos (28,6%) e a formação inadequada frente às necessidades (12,6%). Em setores específicos, a escassez é mais aguda — construção (60%), mobiliário e madeira (59,8%) e metalurgia (55,6%) — o que assinala desafios de longo prazo para a cadeia industrial.
O cruzamento desses dados com outros indicadores de emprego sublinha uma contradição estrutural: o tasso di occupazione da Itália continua inferior à média europeia, enquanto as empresas relatam dificuldades para contratar. Uma das chaves para entender essa aparente desconexão é o elevado contingente de inativos — mais de 33% da força de trabalho potencial — que limita o universo de candidatos disponíveis.
Em termos de política econômica, a situação pede uma abordagem de engenharia fina: é necessário combinar políticas de formação profissional — que aumentem a oferta qualificada — com incentivos que reativem a participação laboral dos inativos. Sem essa calibragem, o “motor da economia” continuará a operar com cilindros desiguais: demanda de vagas sem correspondência em oferta qualificada, uma perda de eficiência que freia a aceleração de tendências positivas.
Em suma, o relatório Excelsior apresenta um quadro misto: uma leve queda nas vagas totais, impulsos de contratação no setor primário, estagnação no terciário e dificuldades persistentes na manufatura. A resposta pública e privada deve focar na formação, na reativação dos inativos e na oferta de contratos que conciliem flexibilidade com segurança, para que a economia volte a acelerar com mais coesão.






















