Quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Na abertura dos mercados europeus, o euro foi cotado a US$1,20, marca que reflete a maior valorização frente ao dólar desde 2022 e um recuo acumulado de cerca de 13% do bilionário papel em doze meses. A leitura rápida é clara: estamos diante de uma anomalia monetária que desafia indicadores que, em teoria, apontariam para um dólar mais firme.
Em primeiro plano, a Fed prepara-se — no dia em que escrevo — para manter a taxa de juros inalterada. Ao mesmo tempo, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano seguem em alta, um sinal tradicional de fortalecimento do dólar. O contraste entre esses sinais e a queda da moeda sugere que há mais dólares em oferta do que demanda na ponta curta dos mercados. Em linguagem de engenharia financeira, a calibragem monetária parece estar desencontrada do torque do mercado.
O quadro político não tranquiliza: o mandato de Jerome Powell está se aproximando do fim e a possibilidade de um sucessor com maior propensão a cortes de juros — alinhado às pressões do Presidente Trump por taxas mais baixas — pode significar uma nova injeção de liquidez. Essa injeção teria o efeito esperado de reduzir ainda mais o valor do dólar, acelerando movimentos que já estão em curso.
Do lado das commodities, a consequência imediata é a corrida para metais preciosos. O ouro alcançou níveis históricos próximos a US$5.000 por onça, com valorização de cerca de 62% em um ano. Prata e platina também registram saltos: a prata beira US$106/oz (+212% em 12 meses) e o platina está em torno de US$2.800/oz (+166%). Tensionamentos geopolíticos entre EUA e UE e a incerteza sobre a trajetória do dólar são os combustíveis dessa aceleração nos metais, que funcionam como um porto seguro quando o motor da economia perde a tração.
Há impactos reais para a economia americana. Os EUA, como grande país importador, beneficiam-se historicamente de uma moeda forte: um dólar fraco aumenta o custo das importações e pode pressionar a inflação, já em 2,8% no último trimestre. Em outras palavras, a perda de poder do dólar pode reduzir margens corporativas e apertar as contas dos consumidores, exatamente quando a política monetária pode se mover em direção a estímulos.
O próprio Presidente Donald Trump minimizou a preocupação pública, afirmando a jornalistas: “Estamos fazendo negócios, é fantástico”. É uma leitura política óbvia, mas a realidade macroeconômica exige prudência. Como estrategista, vejo sinais de que a próxima fase exigirá uma reavaliação rápida de risco pelos alocadores: a combinação de expectativas de juros, volatilidade cambial e preços de ativos coloca o mercado sob um regime de maior incerteza.
Em suma, a queda do dólar para US$1,20 por euro e os recordes em ouro não são apenas manchetes — são indicadores de mudança de marcha na economia global. Investidores e formuladores de política precisam recalibrar a estratégia, como quem ajusta os freios e a suspensão de um veículo de alta performance para recuperar estabilidade.
Stella Ferrari — Economista sênior, Espresso Italia






















