Por Stella Ferrari — Em um movimento que mistura consumo consciente com geopolítica, a Dinamarca registra um crescimento acentuado de aplicações móveis destinadas a identificar e, quando possível, evitar **produtos americanos**. O fenômeno surge na esteira da tensão entre o presidente dos **EUA** e o governo dinamarquês sobre a hipótese de aquisição da **Groenlândia**, provocando uma resposta de consumidores que buscam mais transparência sobre a origem dos bens.
Duas aplicações receberam atenção imediata. A UdenUSA (“NonUSA”), que permite escanear códigos de barras para verificar o país de origem, sugere alternativas não americanas — muitas vezes locais — e permite adicioná-las diretamente ao carrinho. A ferramenta subiu rapidamente ao topo da App Store dinamarquesa, passando o próprio ChatGPT, segundo relatório da Euronews. Os criadores, incluindo Jonas Pipper, enfatizam que o objetivo não é organizar um boicote, mas fornecer mais clareza ao consumidor: “Cabe às pessoas decidir o que fazer com a informação”, declarou Pipper à DR Nyheder.
Outra app em destaque é a Made O’Meter, que avalia o grau de “americanidade” de produtos, empresas e serviços; atualmente figura entre os primeiros colocados nas lojas de aplicativos na Dinamarca. Especialistas pedem cautela sobre o real impacto econômico dessa tendência: nos supermercados dinamarqueses, a parcela de alimentos importados diretamente dos Estados Unidos é limitada.
Louise Aggerstrøm Hansen, economista do Danske Bank, citada pela Euronews, estima que apenas cerca de 1% do consumo alimentar na Dinamarca provém diretamente dos EUA. Em termos macroeconômicos, isso reduz a eficácia de um eventual boicote em termos de perda de receita direta. Contudo, do ponto de vista psicológico e de opinião pública, a dinâmica pode ser relevante: apps que simplificam a ação dão ao cidadão a sensação de que está “fazendo algo” — uma aceleração simbólica mais do que um choque de demanda real.
Politicamente, a escalada vem após reiteradas declarações do presidente Trump, que retomou a ideia de adquirir a Groenlândia no início de janeiro. Após eventos como o Fórum de Davos e encontros diplomáticos — inclusive com o primeiro-ministro Rutte —, as negociações parecem ter rendido garantias de proteção da ilha e possíveis concessões sobre recursos minerais. A posição provocou protestos: milhares de pessoas foram às ruas na Dinamarca e na própria Groenlândia para rejeitar qualquer hipótese de takeover americano.
Do ponto de vista estratégico e macro, a situação é uma demonstração de como sentimentos geopolíticos podem ativar ferramentas digitais e mudar marginalmente padrões de consumo. A analogia é clara: se a economia for um motor, essas aplicações funcionam como um novo módulo de telemetria — não necessariamente trocando o motor, mas influenciando ajustes finos na calibragem do consumo. Para empresas e formuladores de políticas, a lição é dupla: 1) comunicar a cadeia de origem com precisão e 2) considerar que a reputação e a narrativa estratégica podem atuar como freios ou aceleradores de curto prazo.
Em conclusão, a explosão de interesse por apps que identificam **produtos americanos** na Dinamarca mostra mais um episódio de como tecnologia e política se entrelaçam na economia global. O efeito prático nas contas nacionais pode ser limitado, mas o impacto simbólico — e a capacidade de moldar percepções e escolhas — merece atenção por parte de investidores e gestores, que devem ajustar seu design de políticas e comunicação com a mesma precisão de um instrumento de engenharia de ponta.






















