Por Stella Ferrari — A recente dinâmica global revela uma combinação perigosa de dazi, deindustrialização e erosão dos instrumentos multilaterais de segurança, que empurra a Europa para uma encruzilhada estratégica entre a egemonia americana e uma potencial corsa nucleare.
No debate sobre proteção do Made in Italy, um dado salta aos olhos: a Itália está entre os países europeus que mais rapidamente responderam ao apelo — iniciado com Donald Trump e mantido por administrações subsequentes — para produzir e investir nos Estados Unidos. Hoje há mais de 3.500 empresas italianas presentes nos EUA, com mais de 300 mil empregados americanos. Não se trata apenas de internacionalização natural, mas de um deslocamento substancial de capacidade produtiva.
O caso da Stellantis é paradigmático: cerca de 85 mil trabalhadores nos EUA contra 40 mil na Itália, muitos dos quais dependentes de mecanismos de proteção social. Situação semelhante para a EssilorLuxottica (80 mil empregados nos EUA, aproximadamente 15 mil na Itália) e para a Ferrero, que hoje conta com mais pessoal nos Estados Unidos do que em solo italiano.
É legítimo perguntar: esta migração produtiva responde a uma estratégia nacional deliberada ou a uma integração subalterna à economia americana? A política industrial italiana, até agora, parece ausente; e a alavanca dos dazi tem sido usada por Washington como instrumento de atração de capitais e tecnologia. Em termos de design de políticas, a União Europeia revela falta de calibração — o motor da economia industrial está perdendo cilindros essenciais.
O nó é, porém, tanto econômico quanto geopolítico. Nos últimos anos popularizou-se a expressão “ordem internacional baseada em regras”, contraposta ao direito internacional clássico. Mas quais são essas regras e quem as estabelece? De perspectiva russa e de muitas potências emergentes, as regras foram moldadas pelo hegemon do momento e aplicadas seletivamente: sanções, embargos, extensão extraterritorial de jurisdições e intervenções militares “humanitárias” tornaram-se alavancas estruturais, não últimas ratios.
O perigo para a Europa é haver aceitado esse quadro sem edificar uma real autonomia estratégica. Apoiar-se em regras não universalmente compartilhadas não protege se quem as escreve pode alterá-las a seu critério. Como ensinava Lao Tzu: não se vence jogando o jogo do outro, mas mudando o terreno do confronto — metáfora útil quando pensamos em redesenhar a arquitetura industrial e de defesa do continente.
Um momento simbólico e prático ocorreu em 5 de fevereiro de 2026: o fim do New START, o último grande tratado de limitação de armas nucleares estratégicas entre Moscou e Washington. Antes dele, já haviam ruído outros pilares:
- o INF Treaty sobre mísseis de médio alcance (2019);
- o Open Skies Treaty (2020–2021);
- o Treaty on Conventional Armed Forces in Europe (saída russa concluída em 2023);
- e, mais atrás, o Anti-Ballistic Missile Treaty (abandonado pelos EUA em 2002).
Esses instrumentos, embora imperfeitos, foram amortecedores contra uma intensificação perigosa da corrida armamentista. Sua erosão amplia o risco de rearmamento e de retorno a cenários potencialmente catastróficos, evocando a grotesca advertência de Stanley Kubrick em Dr. Strangelove.
Para a Europa, as escolhas são claras em termos estratégicos e macroeconômicos: continuar a aceitar um papel secundário dentro de uma ordem reescrita por terceiros, ou acelerar a construção de uma política industrial e de defesa independente. A resposta envolve apostas de longo prazo: investimento em tecnologias críticas, fortalecimento das cadeias de fornecimento intra-europeias, mecanismos de proteção para setores estratégicos e uma diplomacia que recupere capacidade de moldar regras.
Na prática, trata-se de recalibrar os freios e a aceleração da política econômica e de segurança — uma intervenção de engenharia fina sobre o motor continental. Sem essa calibragem, a Europa corre o risco de ver seu parque industrial deslocado, sua autonomia estratégica corroída e seu espaço de manobra nas grandes decisões geopolíticas reduzido.
O desafio é ambicioso: reinvestir na competitividade industrial, alinhar incentivos fiscais e de investimento, e construir uma arquitetura de defesa e de tratados que devolva previsibilidade e contenção. Não é uma manobra de curto curso; é uma reforma de chassi, que exige liderança, capital e visão. A hora para agir é agora — antes que o cenário geopolítico se torne irreversivelmente condicionado por interesses externos e pela lógica do poder.
Stella Ferrari é economista sênior e estrategista de mercado. Analisa economia, desenvolvimento e políticas industriais com foco em alta performance.






















