Milão, 12 de janeiro de 2026 — Em movimento que recalibra o tabuleiro do setor bancário italiano, Crédit Agricole oficializou a posse de uma participação de 20,1% no Banco BPM. A autorização veio da BCE após um processo de análise que durou cerca de oito meses e agora coloca a instituição francesa em posição de maior influência nas decisões da governança do banco.
Segundo fontes internas, a estratégia de Crédit Agricole não busca o controle direto da gestão, mas sim uma representação proporcional ao novo peso acionário: a meta declarada é obter até cinco conselheiros em um conselho de quinze membros. Esse número refletiria a presença acionária e permitiria ao grupo influenciar, inclusive indiretamente, a escolha do presidente, cargo que ainda deve ser ocupado por alguém com passaporte italiano, mas alinhado aos equilíbrios desejados pelo acionista majoritário.
A autorização da BCE vem acompanhada de salvaguardas. Uma das hipóteses discutidas prevê um teto de até sete assentos reservados a Crédit Agricole, medida preventiva pensada para evitar uma aquisição de fato da instituição e gerir potenciais conflitos de interesse. Ainda assim, há limites estatutários que condicionam o alcance imediato dessa representação: com o estatuto atual, a francesa poderia chegar, na prática, a no máximo três conselheiros.
O pedido para ultrapassar a barreira dos 20% foi protocolado ainda no verão europeu e, ao longo do procedimento de aprovação pela Vigilância, a situação singular de Crédit Agricole chamou atenção — teoricamente, segundo normas europeias, a posse de até 29,9% abriria caminho para direitos de veto sobre operações extraordinárias e poderia desencadear notificações a autoridades de concorrência.
Como alternativa ao acesso direto por vagas no conselho, a instituição já avalia, desde dezembro, a apresentação de uma lista de minoria que garantiria cargos estratégicos como a presidência do conselho fiscal (collegio sindacale) e do comitê de riscos. Essa rota permitiria maior penetração na governança sem alterar de imediato o corpo executivo.
Outra via estudada pelos conselheiros de Banco BPM e seu corpo jurídico é a alteração do estatuto para aumentar a reserva de assentos para minorias — de cinco para seis — fortalecendo, assim, a representação de Crédit Agricole e abrindo caminho mais sereno para a recondução do CEO Giuseppe Castagna. Contudo, essa solução requer aprovação em assembleia, expondo-a a incertezas e a eventuais negociações políticas internas.
O board atual manifesta intenção de confirmar Giuseppe Castagna à frente da administração, mas a formalização depende de ajustes estatutários alinhados à Lei Capitali italiana e de um acordo sobre a lista de candidatos. Em suma, o processo está longe de estar fechado: conselheiros, assessores legais e a supervisão regulatória conduzem agora a calibragem fina — como quem ajusta a injeção eletrônica de um motor para obter desempenho e estabilidade.
Do ponto de vista estratégico, esta operação posiciona Crédit Agricole como ator de peso nas negociações futuras do banco e reacende o debate sobre alianças e independência na governança de bancos europeus. As próximas semanas serão decisivas para entender se prevalecerá uma solução de compromisso — estatutária ou por listas — ou se a situação evoluirá para cenários mais complexos de influência acionária.





















